Psammoturismo. A areia do deserto como experiência e recurso turístico (Merzouga, sudeste marroquino)

Laurent Gagnol,
Pierre-Antoine Landel

Resumo

Este artigo descreve as condições do surgimento e da construção de um novo recurso territorial local baseado no desenvolvimento da presença das dunas de areia. Merzouga, no deserto pré-sahariano do sudeste do Marrocos, tornou-se assim um centro mundial do turismo no deserto. A imersão turística na areia (ou o psamoturismo) é em dobro: um turismo de excursão clássico para uma clientela internacional e um turismo de bem-estar que consiste, para os curistas marroquinos, na prática de banhos de areia. O recurso arenoso está vinculado a outros recursos, culturais e identitários, que o ancora localmente e o torna um recurso territorial específico, reconhecido do exterior e controlado localmente. A massificação do psamoturismo, especialmente através da criação de uma “frente do deserto”, ameaça com a banalização dos recursos que marcaram a especificidade e o sucesso deste destino turístico.

Palavras-chave: banhos de areia, recurso territorial, turismo sahariano, areia, Marrocos, Merzouga.

Introdução: a areia, um recurso territorial cobiçado

A areia provoca a reflexão: Se algumas publicações têm enfatizado a sua importância no modo de vida técnico, ecológico, social, simbólico e estético dos grupos humanos (Boulay et Gélard, 2013; Roccella e Varichon, 2006), outros têm-se centrado mais especificamente nas práticas turísticas nos balneários, na centralidade das praias para as sociedades urbanas contemporâneas (especialmente Corbin, 1988; Lageiste, 2008). Por fim, mais recentemente, a areia é objeto de estudos que mostram a complexidade das questões científicas, mas também sócioeconômicas e ambientais que ela gera como um recurso natural (Welland, 2009). As investigações jornalísticas (Delestrac, 2015; Beiser de 2015) e a ação das organizações não governamentais (por exemplo, o Coletivo Povo das dunas em Trégor, a Fundação Awaaz e Santa Aguila[1], etc.), o grande público foi alertado sobre as graves e subestimadas consequências  da sua extração e transporte (poluição e degradação ecológica, erosão fluvial e marinha, salinização da terra, perda da biodiversidade, etc.). Matéria prima essencial, sua exploração se realiza cada vez mais em grande escala e muito frequentemente de maneira informal e / ou ilegal em todo o mundo (PNUE, 2015). O aumento da demanda e a multiplicação dos usos transformaram a areia em um recurso, que se não se tornou raro, mas é cobiçado e objeto de conflito (fig.1)[2]. Para atrair os turistas internacionais através da criação ou manutenção das praias de areia branca, protegendo a costa da erosão marinha ou criando ilhas artificiais e diques, a oferta de areia é generalizada nos litorais turísticos e urbanizados do mundo inteiro.

Fig. 1 : Campanha da ONG Awaaz et da Bombay Natural History Society durante a COP 11 da Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica em Hyderabad (Inde, 2012).

Fig. 1 : Campanha da ONG Awaaz et da Bombay Natural History Society durante a COP 11 da Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica em Hyderabad (Inde, 2012).

Mas a areia não é adequada para todos os usos que se fazem dela hoje. Se o uso deste recurso esta globalizado, ele não se encontra generalizado. Ele se encontra em campos localizados e específicos, bem como as diferentes expertises e práticas que a manejam, a areia como recurso, é muitas vezes, objeto de um processo especifico ancorado no território.

Partimos da análise de um caso que revela a areia como um recurso territorial (Gumuchian et Pecqueur, 2007; Landel, Gagnol et Oiry-Varacca, 2014), este artigo se propõe a discutir a hipótese da especificação e ancoragem da areia como recurso. Mais precisamente, ela será considerada a partir de uma areia bem específica e localizada: trata-se de uma areia de dunas (erg) de locais turísticos do deserto marroquino atraindo uma massa de visitantes nacionais e internacionais. Recurso econômico primordial, a areia possui um valor turístico e terapêutico muito forte e aparece como o principal motor do desenvolvimento destas regiões marginalizadas e isoladas das fronteiras pré-saarianas do Marrocos. É isto que este artigo busca mostrar através da análise da trajetória do desenvolvimento turístico da peeuqna cidade de Merzouga (pondo em paralelo com a cidade de M’hamid El Ghizlane[3]), que se assenta sobre um duplo psammoturismo. Este refere-se as práticas turísticas baseadas na areia considerada como um recurso específico para um território.

Para o caso que nos interessa, refere-se à prática de banhos de areia, que é uma forma de turismo de saúde realizada principalmente por visitantes nacionais, que junto ao turismo de deserto mais tradicional, se baseaiam na organização de excursões nas dunas para uma clientela principalmente internacional, especialmente europeia. A dimensão experiencial e sensorial do psammoturismo é fundamental. Estritamente falando, os turistas submergem na areia do deserto, através do enterro voluntário do seu corpo ou pela excursão nas dunas imprimindo involuntariamente e momentaneamente seu percurso (os traços da sua montaria ou do seu veículo).

Através da análise da trajetória do desenvolvimento de Merzouga, vamos mostrar como gradualmente se construiu o desenvolvimento de recursos turísticos baseados nos agentes locais da presença nos campos de dunas. O recurso arenoso foi objeto de uma especificação que fez o renome nacional e internacional de Merzouga. Nossa hipótese é que esta ancoragem territorial resulta de um controle organizado localmente de acesso ao recurso, mas também de uma ampliação dos clientes e dos usos dos outros recursos adicionais complementares, notadamente culturais e identitários. No entanto, o sucesso e a massificação carregam um germe do risco de banalização do recurso e da experiência turística e pode produzir as condições do seu esgotamento, ou mesmo do seu colapso.

A emergência da areia como recurso turístico

O desaparecimento do nomadismo

 De acordo com a memória oral do seu povo, a fundação de Merzouga, se deu a partir do estabelecimento do assentamento como centro de gravidade da tribo berbere Aït Khebbach (faz parte da confederação Aït Atta), que data da colonização francesa, a partir dos anos 1930. Esta região desertica permaneceu rebelde a autoridade central do Makhzen e do poder colonial. Fortemente influenciado pelo nomadismo, o pastoreio e a atividade comercial das caravanas, as consequências da colonização produziram um primeiro choque. Este foi posterior ao acantonamento e à restrição de deslocamento das tribos e ao desaparecimento da proteção das comunidades do oasis (do Rteb e Tafilalt ao Draa e até ao Gourara e ao Tuat na atual Argélia, sobre um eixo de cerca de 1000 km). Mais tarde, a relevância agrícola e da mineração (incluindo as minas de chumbo em Mfis[4]) e a demarcação das fronteiras após a independência do Marrocos, e em seguida da Argélia puseram o nomadismo num processo de regressão (Lefébure, 1986), isto é, um lento processo de desaparecimento, antes de uma segunda ruptura ao longo dos anos 70/80. Após os episódios da Guerra das areias em 1963, o ano de 1975 marca a ruptura das relações entre o Marrocos e a Argélia após a anexação do Sahara Ocidental (ruptura reiterada em 1994 com o fechamento oficial da fronteira[5]). Até os anos 70, as populações Aït Khebbach sempre viveu do seu capital de mobilidade, pelas atividades comerciais entre o desertoa montanha e o oásis mas também jogando as trocas e a complementaridade dos recursos dentro de uma rede de comércio transfronteiriça (com as fronteiras da independências) e a mecanização (os caminhões). O colapso do pastoralismo seguido do aumento das ocorrências e da intensidade das secas (particularmente em 1974 e as do início dos anos 80) e a construção da barragem Hassan Addakhil ao norte da Errachidia em 1971, seguido por um série de outras estruturas hidráulicas secundárias, levou a um declínio acentuado nas práticas pastorais, mas também do cultivo de diversos cereais (Maader), devido principalmente ao desaparecimento das áreas de inundação[6].

Para se adaptar ao inevitável declínio dos seus principais meios de subsistência e a compartimentalização do seu espaço vivido, as populações Aït Khebbach conseguiram diversificar seu modo de morar e sua economia. O assentamento se intensificou e aparece agora generalizado, mesmo se algumas famílias ainda vivem em parte da criação de animais e que durante os poucos períodos de chuvas elas exploraram as pastagens. A agricultura irrigada se desenvolveu: os khettara (drenos essencialmente subterrâneos distribuem a água por gravidade a partir de uma fonte) mais as moto-bombas, permitiram o desenvolvimento de palmeiras e da produção de alimentos para subsistência e exportação, embora o assoremanto, o baixo nível mais e a salinização dos lençois freáticos são alarmantes, removendo as palmeiras ao longo do rio. Os empregos formais se expandiram, o exército se tornou em 1975 o maior empregador e o êxodo rural tem sido particularmente forte, levando a um declínio demográfico, apesar do elevado crescimento natural (Aït Hamzi e El Faskaoui, 2010). No entanto, nos últimos vinte anos, sobretudo, o surgimento de um novo recurso substituiu aqueles que desapareceram: o turismo.

O turismo de excursão nas dunas

Este último começou no Marrocos desde o período colonial, mas foi só nos anos 1970 que os primeiros mochileiros apareceram no sudeste marroquino, que constituía um destino original e marginal. Se, em Merzouga, um albergue compartilhado foi criado em 1975, a partir deste ano, os turistas foram obrigados a serem atendidos pelos guias das agências reconhecidas (Marrakech, Rabat …) e passar a noite em Erfoud , principal cidade do Tafilalt[7]. O turismo internacional na região de Merzouga realmente começou a se desenvolver no final dos anos 80, como evidenciado pela implantação das primeiras infra-estruturas turísticas. Alguns locais tinham por habito oferecer, sob a tenda, chá de menta para os turistas que vinham subir as dunas ao amanhecer ou no pôr do sol[8]. Sob o incentivo dos primeiros operadores turísticos que buscavam parcerias locais, as famílias dos antigos nômades fundaram as primeiras agências de turismo locais, oferecendo passeios de camêlo por dia, ou para vários dias ou mesmo semanas. A atividade turística foi gradualmente estruturada e teve um forte crescimento no início dos anos 2000 (ver mapa, fig. 2), seguida pela construção da linha telefónica (1995), da eletrificação (1998), do asfaltamento das estradas de Rissani (a partir de 2002 e concluída em 2005), do abastecimento de água potável (2003) e da conexão com a rede de telefonia móvel (2000) e  internet (2005). Tendas decoradas como um salão de chá marroquino foram substituídos pelos primeiros albergues familiares de adobe. Hoje são verdadeiros hotéis (não superiores a algumas dezenas de camas) gradualmente adaptados aos padrões do turismo internacionls (chuveiro quente, cozinha internacional, wi-fi, espaço para motorhome[9], etc.). Foram bem estruturadas a economia turísrica informal (máquinas de venda automática e guias amadores[10]) e formal (lojas, bazares, agências de turismo e de transporte) associados as atividades específicas no deserto, incluindo as excursões guiadas nas dunas para os turistas ocidentais (caminhada e / ou dromedários ou veículos motorizados: motos, quads, 4×4, etc.). Apesar da modernização e da diversificação das atividades, a duração das estadias turísticas em Merzouga é curta. O turismo de caravana itnerante com viajens de longo prazo (camelo) hoje em dia é marginal em comparação com o turismo de excursão mais padronizado e rápido (meio dia ou uma noite). Nas excursões organizadas para os operadores turísticos internacionais, mas também para os turistas individuais, Merzouga é realmente a etapa obrigatória (ou M’Hamid em menor grau) de uma estadia no Marrocos, que inclui uma viagem ao deserto. Os tours expressos permitem também,  em meio dia, subir as dunas ao pôr do sol ou nascer do sol, conhecer os “nômades” e voltar ao hotel em Erfoud. No entanto, a maioria dos turistas não pass uma noite no acampamento, nos assentamentos e tendas nômades. A partir, sobretudo, dos anos 2000, os acampamentos móveis mais do que os fixos (de concreto) são instalados no coração das áreas de dunas (fig. 3), especialmente o de l’erg Chebbi (fig. 4), por turistas locais (muitas vezes proprietários de pousadas ou de agências locais). Ele existe há sessenta anos.

Fig. 2 : Mapa do psammoturismo em Merzouga

Fig. 2 : Mapa do psammoturismo em Merzouga


Figure 3. Bivouac near Zagora. It is called ‘Palmier Fram’ (Fram Palm Grove) because it resembles the logo of the French tour operator FRAM, which offers short tours to the desert (photograph by Gagnol, June 2014).

Figure 3. Bivouac near Zagora. It is called ‘Palmier Fram’ (Fram Palm Grove) because it resembles the logo of the French tour operator FRAM, which offers short tours to the desert (photograph by Gagnol, June 2014).


Figure 4. The arrival of a tourist caravan at the Erg Chebbi ‘oasis’ bivouac near Merzouga during a sandstorm (photograph by Gagnol, June 2014)

Figure 4. The arrival of a tourist caravan at the Erg Chebbi ‘oasis’ bivouac near Merzouga during a sandstorm (photograph by Gagnol, June 2014)

Paralelamente e concomitantemente a esta exploração turística das dunas[11], um tipo diferente de valorização dos recursos da areia foi gradualmente posto em prática, mas para uma clientela completamente diferente, principalmente doméstica: os banhos de areia.

O turismo de saúde nas dunas

Especie de sauna natural, os banhos de areia para fins terapêuticos ou de bem-estar[12] não são uma especificidade do sudeste marroquino, ou mesmo norte-africano: eles são praticados em todo o mundo, especialmente em regiões desérticas (do Norte da África a Ásia Central e na China), mas também nas regiões vulcânicas e balneárias (especialmente no Japão). Na Europa, até o início do século XX, eles foram generalizados nos resorts de praia do mediterrâneo e do atlântico (mar preto e o mar báltico). Embora eles são praticados ao ar livre atualmente, eles ainda estão em uso em alguns centros de talassoterapia e spas (em mesas ou nas banheiras com areia artificialmente aquecida). No Marrocos, Merzouga é a meca: é o lugar mais famoso e mais frequentado[13] quanto as qualidades da areia do l’erg Chebbi, ao longo do qual são construídas vilas e a infra-estrutura hoteleira (ver fig. 2 ).

A imersão do corpo na areia não é uma novidade no sudeste marroquino: M.-L. Gélard (2014) enfatiza justamente sua ancestralidade na tradição cultural e médica bérbere. No entanto, o que se observa atualmente em Merzouga – nessa forma e disseminação – é relativamente recente. Na década de 80, o precursor foi um médico belga que se mudou para Merzouga para curar seu reumatismo, ele reconheceu os benefícios do tratamento e intrigado foi pesquisar junto a população local. Outra narrativa local, conta que um médico marroquino de Casablanca teria aconselhado um de seus compatriotas a emigrar para a Europa. Apesar da divergência das versões sobre a origem, ambas enfatizam sua exterioridade: uma olhar externo com o peso da legitimidade da medicina chamou a atenção dos atores locais para as potencialidades terapêuticas dessa prática para uma clientela alogênica, e, assim, o seu interesse na economia local e as potencialidades da sua ancoragem no território. A transmissão para os atores locais foi quase imediata, uma vez que ela se baseou nos costumes antigos readaptados[14].

A reputação de Merzouga se assenta nas qualidades intrínsecas atribuídas à sua areia, comparada a outras dunas menos procuradas. Eles referem especialmente ao tamanho dos grãos de areia (sem de poeira pode entupir os poros da pele), a regularidade e o alisamento do grão (que flui facilmente), o baixo teor de matéria orgânica e a composição mineralógica (sem detritos de calcário), ao alto poder calorífico ligado a um clima quente e seco com forte luz solar, assim como cor ocre / rosada das dunas. Graças a essas qualidades específicas, as virtudes profiláticas e curativas da areia seriam mais intensas. A imersão nesse ambiente extremamente quente e seco (mais do que 70 °, o ar que flui entre os grãos impede as queimaduras), provoca uma forte reacção do organismo, especialmente sob a forma de uma intensa transpiração que leva a dessecação do corpo, eficaz contra certas doenças inflamatórias e desordens traumáticas e articulares, incluindo reumatismo e nevralgia, artrite, lombalgia, etc. De acordo com uma concepção Hipocrática da relação do corpo ao meio, estas condições são muitas vezes consideradas no Marrocos como resultando de vida passada num clima húmido e frio, o que leva à absorção de humidade excessiva pelo corpo. Os banhos de areia provocam assim um reequilíbrio do corpo. Eles são, de fato, praticados principalmente por clientes árabes que vivem nas grandes cidades da costa atlântica do Marrocos (Casablanca, Rabat, Tânger, etc.) ou por imigrantes marroquinos que vivem na Europa.

Devido às qualidades intrínsecas e funcionais da sua areia, Merzouga tornou-se assim a meca dos banhos de areia no Marrocos, sobrepondo-se a M’Hamid, Zagora ou Figuig. É verdade que ela goza de maior proximidade aos centros urbanos e do porto de Tânger e que os atributos estéticos e a altura das dunas (160 metros) reforça sua atratividade. A psammoterapia se desenvolveu de maneira paralela e concorrente ao turismo de excursão que encontrou nas dunas um espaço para lazer e uma paisagem excepcional. Duas formas de psammoturismo coexistem sem realmente se misturem, visando dois públicos diferentes em torno do mesmo recurso, a areia: o turismo de excursão nas dunas para os turistas internacionais e o turismo de saúde para a população local (e os marroquinos imigrantes na Europa) . O verão é a alta temporada da prática dos banhos de areia, e corresponde a baixa temporada dos turistas internacionais. A areia é, assim, um recurso turístico duplo, dando vida ao longo do ano a maioria das pessoas locais, urbanizando um “front do deserto” ao longo do flanco ocidental do l’erg Chebbi (ver mapa, fig. 2).

A areia: um recurso territorial sustentável no deserto?

A ancoragem territorial do recurso

A organização dos banhos de areia permanecem em grande parte informal e familiar. Sob a orientação e o apoio de um habitante de Merzouga (fig. 5), cada um pode vir e se enterrar na areia. As dunas do l’erg fazem parte de terras tribais que pertencem a um regime de direito coletivo, não existem áreas privatizadas desenvolvidas exclusivamente para esta finalidade. No entanto, nas iniciativas privadas, os acampamentos temporários são instalados (fig. 6) para receber os hóspedes dos locais mais frequentados (há uma tenda para descansar e tomar um chá e uma ducha). Alguns albergues organizam banhos para os turistas locais que solicitam, mas a maioria deles não aceita turistas locais. De acordo com os proprietários, investir em muitos quartos, essa clientela reduziria o padrão dos estabelecimentos, reduzindo a frequantação dos turistas ocidentais. Sobretudo, a areia derramada entupiria a tubulação.

Fig. 5: Aterramento curatico de duas pessoas enterradas sob a supervisão de um acompanhante local (Foto Gagnol, próximo de Merzouga,  junho 2014).

Fig. 5: Aterramento curatico de duas pessoas enterradas sob a supervisão de um acompanhante local (Foto Gagnol, próximo de Merzouga,  junho 2014).

 

Fig. 6: Acampamento em local de banho de areia perto de Merzouga. Ao fundo, no canto das dunas mulheres praticam (Cliché Gagnol, juin 2014).

Fig. 6: Acampamento em local de banho de areia perto de Merzouga. Ao fundo, no canto das dunas mulheres praticam (Cliché Gagnol, juin 2014).

Porque eles vêm em família ou em grupo de amigos (geralmente relativamente idosos) e também por causa dos recursos financeiros modestos, a maioria dos turistas locais ficam na casa dos habitantes locais[15], atendidos por “guias amadores”. O que gera dificuldades culturais na convivência para a população local que é relutante em receber “estrangeiros” nas suas casas. É por isso que a distância é mantida entre a casa e os turistas: eles são alojados em uma parte separada da casa principal da família que foi especialmente ampliada para este fim (neste ponto, ver os detalhes dados por Gélard, op cit .. ). Além disso, os lugares do banho de areia estão localizados nas primeiras dunas em contato com as últimas casas, eles, assim, contribuem para a urbanização ao longo do l’erg Chebbi bem como a densificação das duas vilas, Merzouga e Hassilabiad. Elas tendem, atualmente, a se aglomerar, pela expansão de albergues e das moradias, e pela absorção dos “bairros” ou “hameau” anteriormente separados. No entanto, apesar da proliferação das novas construções, continua difícil de encontrar alojamento no coração da temporada (especialmente em julho e agosto). Todos os quartos e terraços estão ocupados, alguns turistas locais, acampam sob as palmeiras perto de um bem público ou mesmo na rua, especialmente na praça central Merzouga que concentra a maioria das atividades comerciais.

Os banhos de areia requerem a ajuda de um acompanhante da aldeia, muitas vezes da família proprietária ou encontrado no lugar (nos acampamentos privados preparadas para esta finalidade). Pago, ele cava poços na areia na parte da manhã para que haja tempo para se aquecer. Durante as horas mais quentes (entre 11h e 17h), os turistas partem em pequenos grupos para se juntar a sua “tumba”[16]. Os homens usam apenas calções[17]. Usando uma pá, o acompanhante cobre parcialmente de areia até o peito ou até o pescoço, tendo o cuidado de proporcionar sombra exclusiva para a cabeça (por meio de um guarda-sol ou tapete entre dois ramos de palmeiras). O aterramento dura alguns minutos (de 5 a 10 minutos mais freqüentemente e raramente até 30, dependendo do calor, da experiência e estado de saúde). O acompanhador ajuda no momento da imersão (na re-hidratação sistemática), em seguida ajuda a se levantar (por causa da hipotensão devida a vasodilatação dos vasos sanguíneos, provoca tontura) e os cobre num grande coberta para manté-los quente (coberta barata também usado para cobrir os camelos). Eles são, então, acompanhados até as tendas ou até a hospedagem. Uma vez deitados, eles descansam tomando chá quente feito pela infusão de plantas medicinais, antes de poderem comer e beber água (morna) e, mais tarde tomarem um banho quente. Esta operação acontece uma ou duas vezes durante o dia e se repete ao longo de vários dias (a duração da estadia varia de dois / três dias até uma semana, raramente ultrapassa 10 dias). Em torno dos banhos de areia gira toda uma economia sazonal. Respondendo às necessidades dos turistas com a estadia e seus cuidados, outros recursos complementares são explorados. Dezenas de vendedores ambulantes da região do Tafilalt se estabeleceram em Merzouga como herbalistas, açougueiros (especialmente de dromedários), massagistas e curandeiros[18], vendedores de cobertores, de chapéus e turbantes, frutas e legumes, suco de laranja, crepes e panquecas, etc. Alguns pastores semi-nômades acampavam dos camelos de ordenha (fig.7): o leite de camelo, produto relativamente caro e reconhecido pelos seus benefícios é parte integrante do tratamento (fig. 8). Do mesmo modo, as infusões de ervas aromáticas e medicinais, apresentadas como tipícas do Sahara, reforçadas pelo chá e pelas massagens são feitas com o cérebro ou a gordura dos dromedários. Os banhos de areia são, portanto, um componente essencial de uma estadia no ambiente do deserto, considerado como autêntico e revigorante[19], associado a pureza da areia, o clima seco e saudável, e os alimentos específicos. Uma dimensão mística está associada a este tratamento, concebida como uma purificação do corpo mas também do espírito. Uma visita as mesquitas e aos mausoléus dos santos do Tafilalt, acompanhado dos banhos nas águas termais[20], faz parte de uma rota curativa levando à cura ou a revitalizar e tonificar[21] para todo o ano.

Fig.7 : Acampamento de um pastor de camelos semi-nômade vendendo leite de camelo fresco perto do principal local de banhos de areia em Merzouga (Cliché Gagnol, 2014).

Fig.7 : Acampamento de um pastor de camelos semi-nômade vendendo leite de camelo fresco perto do principal local de banhos de areia em Merzouga (Cliché Gagnol, 2014).


Fig. 8 : Painel publicitário de venda de leite de camelo em M’Hamid (Cliché Gagnol, 2014)

Fig. 8 : Painel publicitário de venda de leite de camelo em M’Hamid (Cliché Gagnol, 2014)

Os banhos de areia são, portanto, para os turistas marroquinos um meio de cura ou de bem-estar através da imersão na areia. Mais amplamente, esta experiência revigorante em um ambiente seguro e autêntico é considerado um retorno às origens beduínas dos seus antepassados. Neste, o imaginário do deserto juntou a busca pelo exotismo dos turistas ocidentais que desejam descobrir a autenticidade de vida nômade e o cenário fornecido por uma excursão para as dunas e uma noite de acampamento (Cauvin-Verner, 2008). Para atender às expectativas dos turistas internacionais e dos turistas locais, a herança nômade em Merzouga é apresentada através de marcadores materiais e imateriais (a viagem itinerante, os dromedários, as tendas e os acampamentos, as vestimentas, os lenços específicos, os cantos e as danças, a culinária, o pão cozido na areia e as plantas aromáticas e medicinais, etc.).

Na verdade, assistimos a uma patrimonialização desses marcadores por sua mobilização para fins identitários e políticos, mas também comerciais, como evidenciado pelos festivais culturais que promovem as culturas nômade e sahariana[22]. Este processo de construção identitária enfatiza as especificidades locais (artesanato, produtos locais) é apoiada pelas autoridades locais e centrais, bem como pelas associações parceiras estrangeiras. O psammoturismo em Merzouga, garante assim uma certa forma de continuidade na transmissão das práticas, da expertise e das identidades herdadas e reabilitadas[23], mas não esta isenta da folclorização.

Um momento revelador desta pauteurização pela massificação do turismo é o encontro tão esperado dos turistas internacionais com os “nômades” em Merzouga. A excursão nas dunas (entre 30 minutos a 2 ou 3 dias) permite acampar numa tenda (de pêlos de dromedário) construída em um oásis entre as dunas (fig. 3 e 4). Mas atualmente é difícil para os turistas imaginar viver uma experiência de vida nômade percebendo o alinhamento dos acampamentos turísticos entre os (plantados para criar o oasis) que ficam protegidos dos dromedários por arame farpado (fig. 4). Além disso, a maioria dos guias e condutores de camelos se apresentam como nômades (ou aldeões recentemente forçados a viver na cidade por causa da seca). Isto leva por exemplo, a cenas surreais onde, para não estragar o mito, os guias se escondem para usar seus telefones celulares nas dunas. Além disso, como na visita aos músicos gnaouas de Khemliya (povoado ao sul de Merzouga), os chamados acampamentos nômades de Kemkemiya (a leste de l’erg Chebbi) faz parte de todos os circuitos em torn do l’erg organizado pelos albergues (em passeios de 4×4) tornaram-se “nômades profissionais”, nas palavras de C. Cauvin-Verner 2010), eles acolhem os turistas sobre suas tendas para beber chá e desfrutar da hospitalidade organizada.

A gestão familiar e o controle local do recurso

No entanto, apesar da forte enfâse unicamente nos efeitos negativos do turismo relacionados a desestruturação das sociedades locais, a maioria dos estudos sobre o sul do Marrocos (Bentaleb 2013, Borghi et al., 2011 Bouaouinate, 2008, Dekkari 2013, Minvielle e al., 2007) negligenciaram as relações sociais mobilizadas na renovação e no controle do recurso. Como vimos, em Merzouga, inovações no desenvolvimento do turismo se inscrevem num contexto informal e familiar: contata-se a pouca presença de cadeias hoteleiras[24], a maioria dos estabelecimentos e das agências de turismo pertecencem a comunidade local. A gestão familiar é relevante uma vez que ela constitui uma garantia da autenticidade procurada pelos turistas ocidentais. Os primeiros chefes de família que investiram no turismo conseguiram melhorar gradualmente a hospedagem: da tenda simples do início no hotel-restaurante com piscina, que é atualmente um símbolo do sucesso econômico. A concretização ocorre com a diversificação da oferta turística (por exemplo, com a locação de veículos e dromedários, com a organização de acampamentos nas dunas). Ser proprietário, significa empregar os irmãos mais novos, os filhos e primos[25], de acordo com as necessidades e habilidades de cada um: limpeza ou animação, como cozinheiro, motorista, guia, condutor de camelo, acompanhante nos banhos de areia de atendimento, etc.

Mesmo se foram as grandes famílias que acumularam capital necessário para assegurar uma grade diversidade de ofertas turísticas, os proprietários das pousadas muitas vezes têm de recorrer a outros proprietários para por os clientes em um acampamento no deserto, alugar um dromedário ou para ter acesso a qualquer outro serviço que eles precisam. Formas de aliança e solidariedade baseadas no parentesco permitiram cobrir todo o espectro das ofertas turísticas. As tensões familiares podem aparecer quando um membro mais jovem ou um filho tentam ganhar sua autonomia tornando-se proprietário, especialmente quando mobiliza redes de apoio externas ou estrangeiras. Desde os anos 90, com o objetivo de investir no turismo, muitos atores locais procuraram estabelecer ou desenvolver seu estabelecimento turístico através de parcerias empresas estrangeiras (francesas e espanholas na sua maioria), muitas vezes fornecendo o capital inicial. Por sua vez, isto permite as empresas estrangeiras investirem, sem ter acesso fundiário, as propriedades coletivas (através do arrendamento, o título fundiário se dá por um morador local). Em torno do l’erg Chebbi em 2007, 20% dos albergues se enquadram nesse tipo de investimento mixto (Bouaouinate, 2008). O caso é relativamente comum e a parceria costuma resultar num casamento entre um homem jovem de Merzouga e uma jovem europeia (sobre estas questões, ver Cauvin-Verner, 2007). Recentemente, uma parceria semelhante possibilitou um investimento imobiliário, servindo de residência secundária e de casa para alugar aos turistas.

Assim, as dinâmicas de investimento e de inovações no turismo estão inscritas em contextos de mudanças de solidariedades e de rivalidades intra-familiares, mas também interfamiliares. Num ambiente de aldeias e tribos onde todos são muito próximos[26], uma inovação não permanece isolada por muito tempo. Os atores turísticos se adaptam rapidamente e adotam as novidades, levando mais equipamentos e conforto[27]. O que certos atoes locais lamentam, entendem como desnecessário e uma banalização da oferta turística. A rivalidade entre as famílias pode levar, por exemplo, a separação dos festivais, que operam segundo a lógica da competição e não da complementariedade. Em M’Hamid o sucesso do festival internacional de nômades levou à criação do Festival Taragalte, que é voltado para os turistas ocidentais. Finalmente, a rivalidade do controle do acesso a determinados locais turísticos privilegiados, provocaram uma pressão fundiária sobre as terras coletivas tribais: a apropriação privada dos locais de acampamento (no l’erg Chebbi, ao pé das maiores dunas de areia) ou mesmo áreas de planeiras, como por exemplo em Oum Lalaag próximo de M’Hamid[28], gera atualmente rivalidades sem levar a um conflito aberto: os modos locais de regulamentação coletiva parecem até o presnte ainda funcionatrm. Mas, vítima do seu sucesso, o turismo nas dunas de Merzouga pode entrar em um ciclo de lógica cada vez mais mortal, as condições de reprodução do recurso estão cada vez mais comprometidas.

A criação de uma “front do deserto”: rumo a uma banalização do recurso?

Merzouga teve um desenvolvido espetacular: de 1.400 habitantes em 1998, o município de Taouz aumentou para cerca de 5.000 em 2006 e mais de 7.000 habitantes atualmente, sem mencionar a população flutuante sazonal. Haviam sete pousadas em 1987, 35 em 1997, 71 em 2007 (Bouaouinate, 2008: 101) e 98 em 2014 (de acordo com um censo de uma empresa de estudos local e os sites de reserva de hospedagem, 84 segundo o diretor do CRI do Drâa- Tafilalt). De acordo com Popp em 2001 (citado em Bouaouinate, 2008: 98), mesmo que as estatísticas não sejam exatas, l’erg Chebbi é provavelmente o complexo de dunas mais visitado do Saara. A expansão de novas construções, extensão e densificação das construções atualmente estão na margem ocidental do l’erg Chebbi como um “front do deserto”, como a imagem do mar nas estações balneárias. Esta urbanização linear ao pé das dunas[29], não planejada, poderia constituir no médio prazo uma estação “psammaire” ou “aréal”, isto é, uma estância turística e balneária do deserto?

Longe quase ausente das atividades turísticas (exceto para a emissão de autorizações de projetos privados), o Estado marroquino, se interessou em intervir em Merzouga para planejar seu desenvolvimento[30]. O objetivo oficial na região de Draa-Tafilalt é passar de 880.000 turistas em 2010 para 1.800.000 a estratégia de desenvolvimento do turismo rural do Ministério do Turismo estima que ele é “subexplorado, embora o local explorado seja em torno de l’erg Chebbi “(citado em Bouaouinate, 2008: 97)[31]. A prioridade atualmente é enfrentar os aspectos considerados anárquicos: sobretudo combater os “falsos guias”. Antigamente, sem estrada pavimentada, eles acompanhavam os turistas de Rissani (na direção de Merzouga onde os painéis de direção estvam devidamente apagados, fig. 9). Mas a estrada asfaltada, os sinais de circulação e o GPS fizeram desaparecer sua utilidade. Eles então passaram a entrar em Merzouga, onde os turistas buscam econtrar o hotel (que muitas vezes eles já reservaram na internet). Alguns não hesitam em mudar a direcção ou em derrubar o painel de um albergue concorrente (fig. 10). Para remediar estes inconvenientes e a poluição visual, ligada à proliferação de anúncios, o Estado introduziu recentemente uma classificação padronizada das hospedagens e concentrou-se em poucos pontos (fig. 11). Os “falsos guias”, em seguida, abandonaram a entrada da cidade para se postar na praça central equipada recentemente com mobiliário urbano. Outros se instalaram nas passagens difíceis das faixas onde esperam por horas até que um veículo fique preso na areia para oferecer ajuda.

Fig. 9: Placa de sinalização rasurada de Merzouga e de Taouz na saída de Rissani (Cliché Gagnol, janeiro 2014)

Fig. 9: Placa de sinalização rasurada de Merzouga e de Taouz na saída de Rissani (Cliché Gagnol, janeiro 2014)

 

Fig.10 : Um « falso guia » movendo a placa de sinalização de um concorrente na entrada de Hassilabiad

Fig.10 : Um « falso guia » movendo a placa de sinalização de um concorrente na entrada de Hassilabiad


Fig. 11 : A nova sinaliação em Hassilabiad (Cliché Gagnol, junho 2014).

Fig. 11 : A nova sinaliação em Hassilabiad (Cliché Gagnol, junho 2014).

Um projeto mais integrado parece estar emergindo para resolver os conflitos de uso que se multiplicam no l’erg Chebbi. É difícil conciliar veículos 4X4 e dromedários (eles têm medo), bem como os turistas que vieram fazer um curso de yoga, observar as estrelas ou viver uma experiência com os nômades com a organização das competições de corrida (é uma etapa obrigatória de todass as competições de veículos no Marrocos). Os atores do turismo, através de uma associação profissional fundada em 2004 sob a liderança do Ministério do Interior, já tinha decidido proibir a construção de hotéis no flanco oriental do l’erg (que é sempre o caso) e de reservar uma grande parte do l’erg os banhos de areia e as excursões de dromedário para os acampamentos, confinando veículos motorizados ao sul do l’erg (o que nunca foi respeitado). Esta abordagem foi adotada pelo projeto piloto do desenvolvimento sustentável do turismo de Merzouga, resultado de um acordo entre o Ministério do Turismo, o PNUD e a agência POT (Programa Oasis Tafilalt)[32]: um zoneamento mais rígido foi a resposta prioritária dada, sobre o princípio do turismo sustentável, mesmo que pareça difícil de implementar.

Por fim, no que concerne os banhos de areia, ao contrário do que acontece em alguns países[33], se eles ocorrem diariamente e em larga escala, o Estado e as autoridades locais e médicas parecem ter perdido o interesse, ao menos recentemente[34]. Mas isso está mudando devido à sua crescente popularidade: a mídia marroquina e internacional repercutem (2M, AFP, Al Jazeera, etc.). Hoje os documentos oficiais começam a divulgar os méritos da areia para apoiar o desenvolvimento do turismo de saúde nessas regiões. No modelo europeu de talassoterapia, as tendências locais de medicalização[35] e de “modernização” da prática emergem (como a massagem, o menu de dietético, o banho de vapor, jacuzzi, etc.), mesmo que, por enquanto, eles têm permanecido letra morta por falta de recursos de investimento, de parcerias estrangeiras e o apoio oficial.

Finalmente, parece que a médio prazo uma convergência poderia ocorrer entre as duas formas de psammoturismo desde que os dois tipos de clientes são cada vez menos compartimentados. Na verdade, com a família ou entre amigos, mais e mais marroquinos vêm de férias a Merzouga para praticar a experiência dos banhos de areia e ver as dunas, fazendo excursões nos acampamentos; enquanto alguns europeus experimentam os banhos de areia, como evidenciado pela diversificação dos discursos sobre os benefícios da areia. Já é conhecido que os banhos eliminam as toxinas e o excesso de peso, permitindo uma tratamento “detox” natural. Tornou-se “tendência”, os banhos de areia em Merzouga sendo elevado o 4ª melhor destino do mundo para o turismo de bem-estar na edição de agosto/setembro de 2016 da revista americana National Geographic Traveler[36]. Assim, podemos nos perguntar se os banhos de areia não estão sendo pausterizados segundo os padrões internacionais do turismo de saúde e bem-estar: profissionalização, medicalização, marketing e recreação.

Conclusão

A trajetória do desenvolvimento territorial desta região periférica amazigh (berbérophone) revela a construção de recursos consecutivos e de colapsos sucessivos. Este conjunto de destruição não é criativa uma vez que ela exige o surgimento e o desenvolvimento de recursos substitutivos para sobreviver. Esta análise mostra que a alternância de construção/destruição dos recursos se dá através de um jogo complexo de escalas entre construções e controles locais dos recursos e captação e colapsos de origem externa e de uma escala superior (regional ou global). Neste caso, os banhos de areia, a dimensão nacional do turismo é enfatizada, na medida em que se trata de uma clientela marroquina (ou proveniente da emigração marroquina na Europa). A construção deste recurso se inscreve nos diferentes processos que podem ser caracterizadas: revelação do recurso, mobilizando principalmente um olhar exterior, justificando o vínculo local, o desenvolvimento e combinação com outros recursos. A questão-chave é que as modalidades de âncoragem deste recurso no território e em particular seu controle pelos atores locais.

Esta ancoragem baseia-se principalmente nas especificidades do local relacionado as qualidades intrínsecas da areia (textura, composição, estética). Eles induzem qualidades funcionais e particularmente os usos terapêuticos que geram novas práticas e atividades. Controlados pelas populações locais eles são ligados a outros recursos (identidade nômade saariana, plantas do deserto, leite de camelo, etc.) para inseri-los no imaginário de bem-estar e de regeneração pessoal. O recurso turístico do deserto e mais especificamente da areia da duna é renovado de acordo com as com as mudanças das práticas de turísticas que tomam como apoio e que explora suas qualidades específicas. Recurso turístico renovável, mas acrescentam que não é necessariamente tão durável pois ele é determinado pela manutenção das condições ecológicas de reprodução dos recursos, especialmente em um contexto de padronização e de crescimento da oferta turística. Isto levanta cada vez mais a questão da preservação da biodiversidade, a problemática do aumento do consumo da água e da gestão dos resíduos[37], mas também de forma mais ampla a protecção das paisagens e a manutenção do agro-pastoralismo no oásis face à desertificação e a urbanização.

Num contexto de mudança e de diversificação das práticas turísticas, a posse fundiária continua sendo um dos principais elos de controle dos recursos do território. Limita a entrada dos atores externos, mas não determina as condições de coordenação dos atores existentes. Estes estão inseridos em sistemas de rivalidade e de conflitos de uso, particularmente no turismo de excursão, que a sazonalidade das práticas e da solidariedade familiar e tribal reduz. Nas famílias grandes, a desagregação familiar das atividades associadas ao psammoturismo é um dos principais modos de coordenação e de controle da atividade. Ele é desafiado pela injeção e captação de capital externo, que são muitas vezes devido a instalação e um investimento no turismo consecutivo a um casamento. Detentores de inovações, mas desestabilizador das normas sociais e morais (Cauvin-Verner, 2007), essas trocas financeiras e emocionais constituem uma das especificidades do desenvolvimento turístico no deserto marroquino.

Junto com o risco de banalização e as questões ecológicas relacionadas com a massificação, a principal ameaça para a vitalidade do recurso é posta pelo desenvolvimento. Embora haja uma urbanização linear do tipo “front do deserto”, o conceito de “resort do deserto” não está longe de emergir das práticas. Neste caso, a afirmação do Estado de novas regras e normas, combinada com a chegada de capital estrangeiro, é uma das principais ameaças que pese sobre o controle local do recurso. A força dos laços dentro das famílias extensas e sua capacidade para negociar de maneira coordenada com as pressões externas, resta a ser analisado. O mesmo acontece com o potencial colapso do recurso turístico. Os atores de Merzouga não se deixam enganar pelo sucesso atual de psammotorismo. Ele se mantém frágil porque condicionado por elementos externos que eles não são mensuráveis, como por exemplo os efeitos potenciais de um ataque terrorista, de um conflito mais aberto com a Argélia, do aumento do contrabando transfronteiriço e da sua repressão. Neste, embora o nomadismo sob sua forma coletiva e puramente pastoral é residual (Rachik, 2000), continua em Merzouga uma herança nômade, baseado no capital de mobilidade  e flexibilidade de uma empresa local que fornece, em um ambiente de deserto arenoso sustentabilidade das condições de vida e existência através da diversificação dos recursos e da rede de relacionamentos mantidos com outras áreas e em outras escalas.

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[1] O site da fundação científica e ecológica americana informa especialmente sobre a exploração da areia [http://coastalcare.org/?s=sand+mining]

[2] A areia é usado na construção, indústria, agricultura, infra-estrutura de transporte, bem como nos portos e instalações turísticas nos litorais. Na imprensa, foi denunciado a pilhagem organizada e assassinatos da máfia da areia (na Índia especialmente) e alguns prevêem guerras futuras pela areia. Parte da costa arenosa marroquina e indiana são saqueadas e as monarquias do Golfo (e Singapura) dragam o Oceano Índico em busca de areia do mar, levando ao desaparecimento de ilhas inteiras na Indonésia e nas Maldivas.

[3] Merzouga é a aglomeração principal da cidade de Taouz (ou Et-Taus) ao sul de Tafilalt. M’hamid está localizado a cem quilômetros a sudeste no vale de Draa. Estes dois municípios rurais têm quase 7.000 habitantes cada (RGPH 2014). Estas são as duas principais atrações turísticas do deserto marroquino, destacando a proximidade dos campos de dunas.

[4] A exploração mineral, começou na época colonial como uma empresa estatal e uma cooperativa nativa, durou cerca de três décadas (anos 50 a 70) e “foi exercida num formato adaptado, a tâcheronnage [com] uma organização do trabalho deixada ao critério dos proprietários. […] Nestas circunstâncias, todo o grupo poderia se beneficiar do seu subsolo “(Lefébure, 1986, 148-151). Atualmente dezenas de milhares de mineiros-artesãos exploram os pequenos depósitos pouco lucrativos e dispersos de chumbo, zinco, cobre, ferro, fósseis e pedras semi-preciosas no sudeste marroquino.

[5] O fechamento e monitoramento da fronteira sudeste marroquina obviamente não impediu o contrabando da Argélia, da Mauritânia e de outros países do Sahel, especialmente o tráfico de gado, de alimentos subsidiados, de cigarros, de resina de cannabis e de gasolina (Oudada, 2012).

[6] A trajectória descrita para Merzouga é idêntica a de M’Hamid desde a criação da barragem d’El Mansour Eddahbi em 1972 (Oudada, 2008: 213). Assim, a propagação da planície do Draa formada episodicamente do lago de Iriqui que já foi uma das maiores áreas pastorais do Marrocos pré-sahariano e que sazonalmente se reuniam os rebanhos. Atualmente é uma região em grande parte deserta e desolada (as inundações e os lançamentos das barragens não lançam água no lago) e um parque nacional. Uma escola e um ambulatório classificado como nômade, mas fico, foram criados por ONGs, mas nunca poderiam realmente funcionar, a falta de professores e de enfermeiros que gostatariam de permanecer lá, mas também de estudantes e pacientes. Perto do lago temporário, há atualmente apenas um café com acampamentos, os 4×4 dos turistas superam os camelos.

[7] A aldeia de M’Hamid, outra meca do turismo do deserto no Marrocos, conheceu cronologicamente e economicamente a mesma trajetória (Cauvin-Verner, 2007 e Oudada, 2008), embora um pouco atrasado devido a questões de segurança mais agudos, a desconfiança das autoridades quanto à presença majoritária da tribo Nouaji des Arib, revindicando os ataques da Frente Polisário que duraram até o início dos anos 80. Região de forte presença militar, os turistas tinham que portar um passe diário e dormir em Zagora até 1986. Em 1996, os protestos de jovens contra o desemprego e o isolamento levaram o Ministério do interior a emitir um grande número de autorizações para a criação de agências e de acampamentos.

[8] Na área de Merzouga, o primeiro acampamento foi criado no início dos anos 80 em Ras el erg, na foz do erg e na pista d’Erfoud e Rissani. O patrão, que trabalhou como motorista de caminhão na França, voltou ao Marrocos para se tornar transportador. As vezes transportando turistas, ele construiu uma tenda simples para acomodar aqueles que queriam fazer uma pausa para uma bebida e conhecer a população local. Em seguida, ele acrescentou uma cozinha, um salão, depois camelos para alugar. Ele acabou construindo sua pousada. Com este sucesso, outros rapidamente copiaram seu percurso apesar das questões morais locais.

[9] Nos últimos anos, observa-se a vinda de muitos proprietários de motorhome (muitas vezes aposentados franceses) para o sudeste do Marrocos. Eles passam alguns dias durante a viagem que pode durar vários meses (no inverno). Eles são muitas vezes apelidados localmente de “Tamalous”.

[10]No Marrocos, este termo refere-se aos guias informais que esperam e abordam os turistas para oferecer seus serviços. No Merzouga, eles vendem pedras semi-preciosas e fósseis e os guiam até o alojamento, bazar ou um local de banho de areia (recebendo uma comissão).

[11] Para uma apresentação mais detalhada do desenvolvimento turístico da região sudeste do Marrocos, ver a tese de Bouaouinate (2008), que oferece uma análise comparativa rica em incofmrações entre Merzouga e M’Hamid.

[12] Também chamado de psammoterapia, psammatoterapia, arénoterapia, terapiaarenosa, de acordo com as raízes gregas ou latinas da palavra “areia”.

[13] Na ausência de estatísticas oficiais precisas sobre o turismo, é muito difícil quantificar a extensão da prática dos banhos de areia. Nossos parceiros locais estimam que ele atrai milhares de visitantes por ano (acompanhados por seus familiares ou amigos).

[14] Os saharianos pouco sofrem destas doenças: as curas de areia que estavam em uso entre os Aït Khebbach continuam hoje em dia entre os tuaregues. Chamada de tegharghar eles usam para curar fraturas, inchaços e inflamações (Gagnol, 2009).

[15] Casas para alugar apareceram recentemente, se endereçando as vezes aos clientes marroquinos ricos para os banhos de areia e aos turistas ocidentais.

[16] Apelidados ironicamente de peixes de areia (uma espécie de lagarto do Saara) os clientes pagam, dizem os nativos com escárnio, pra cavar a própria cova: a imersão na areia é representada como um funeral.

[17] As mulheres ficam vestidas e costumam e cobrem as pernas e / ou a pélvis. O acompanahnte é do mesmo sexo (ver Gélard, op. cit.) e o local dos banhos não é o mesmo.

[18] Uma acumpurista coreana instalada em Fez passa a estão do verão em Merzouga.

[19] Em relação ao deserto (badiya) e sua patrimonialização nos países árabes, ver em particular Métral (2010).

[20]Os spas famosos de Hamat Moulay Hachem e, especialmente, os de Hamat Rissani são recomendados para problemas reumáticos. Eles estão localizados ao norte de Errachidia ao longo do Ziz, na estrada entre Merzouga e as regiões atlânticas. O mausoléu Moulay Ali Chérif perto de Rissani abriga o túmulo do fundador da dinastia Alawita. Na Argélia e no Egito (Siwa), os hóspedes do spa desfrutam de uma posição mais vantajosa, esta concentrada em um só lugar os recursos arenosos, termais e religiosos : as estações de banho de areia são muitas vezes estações termais e zaouïas.

[21] Além disso, discretamente, alguns consideram que os banhos de areia são uma maneira eficaz para lutar contra a impotência e infertilidade (os herboristas vendem muitos afrodisíacos…).

[22] Se em Merzouga, os festivais culturais criados não foram permanentes, dois festivais rivais ocorrem em M’Hamid há mais de uma década.

[23] Por exemplo o turismo possibilita a reprodução dos camelos e a expertise no seu adestramento e condução. Mas não podemos colocar no mesmo nível os percursos de longa distância com os camelos que exigem competências adquiridas ao longo da vida nas viagens no deserto e nas excursões nos acampamentos: os primeiros dizem que os camelos são mal treinados e mal tratados. Eles só sabem circular em fila. Como nos disse um interlocutor “aquele que não tem expertise, lida com o turismo. Há muitos camelos”. Estes são apenas do sexo masculino, às vezes castrados para evitar comportamentos agressivos. Para não ter que ir procurá-los pela manhã, eles são amarrados de joelhos a noite. Eles são alimentados com feno de alfafa e cevada trazidos de outras regiões do Marrocos e bebem água de cisterna. O pastoralismo sofre com as secas recorrentes, a posse de um animal atualmente é um luxo: apenas algumas ovelhas são criadas nas casas para aparar os jardins. Se algumas famílias de pastores semi-nómades ou sedentários ainda vivem na parte da criação de camelo para revenda e aluguel turístico (ou venda de leite perto de Merzouga e Rissani), a maioria dos camelos empregados no turismo vem de outras partes do Marrocos (cedidos ou propriedade de famílias Aït Khebbach instaladas em torno de Boudnib) e são comprados nos mercados (Tinghir e Gelmim). O mesmo se dá com as tendas de pêlo de camelo (khaïma) nos acampamentos que, por falta de matérias-primas, já não são mais de Aït Khebbach, que se adaptam melhor ao deserto: elas vêm de regiões montanhosas do Saghro e do Atlas povoada por outros pastores nômades Aït Atta.

[24] Além de um espanhol, dono de uma acampamento e dois hotéis (em breve serão três) eles tem a maior capacidade (80 camas).

[25] As mulheres de Merzouga trabalham pouco no turismo. A maioria das cozinheiras e arrumadeiras são das áreas urbanas.

[26] Este controle interno nas vilas vale também para os turistas. Como nos confidenciou um dos nossos interlocutores, “aqui nós controlamos tudo. Somos como policiais. Nós sabemos quem são turistas. Temos uma “lista”! Não aceitamos mais alguns que já são conhecidos.”

[27] Já não é incomum encontrar pousadas com piscina, ar condicionado, terraço com uma vista panorâmica com telescópio, etc. A evolução dos acampamentos é ainda mais impressionante: acampamentos e tendas luxuosas e dizer oferecem ducha quente com banheiro químico, sofá, cama de dossel, electricidade de gerador. Pode-se chegar de helicóptero a partir de Marrakech em um acampamento de luxo de Erg Chegaga.

[28] Literalmente a “fonte de sanguessugas” renomeada pelos turistas “oásis sagrado” Oum Lalaag é um pequeno bosque cercado que abriga um acampamento e tornou-se um caminho obrigatório entre M’Hamid e Erg Chegaga.

[29] Apenas um hotel foi criado na reg, relativamente longe das dunas: fechou rapidamente por falta de clientes. A M’Hamid as dunas e os locais de acampamento são mais distantes (erg Chegaga, Lihoudi, Zehar, Hamada “Porta do deserto”, etc.) e o alojamento mais diversificado: por exemplo, há uma maior presença de parques de acampamento nas palmeiras. Os atores do turismo em M’Hamid estimam que por causa de seu pequeno tamanho e da superlotação, o Erg Chebbi não é um verdadeiro deserto como o de Chegaga. Acrescenta-se que a duna de areia de Tinfou no sul de Zagora foi trazida por caminhões em função de um filme!

[30] As inundações catastróficas em Maio de 2006 mostraram o risco do desenvolvimento turístico não planejado. Metade dos albergues foram danificados e desenas destruídos, duas não foram reconstruídas (eram propriedade de investidores estrangeiros que tentaram processaram as autoridades locais por autorizarem a construção numa área de inundação), apesar das demais hospedagens estarem exatamente no mesmo lugar (Bouaouinate, 2009). Desde então, as licenças de construção são mais difíceis de se obter (junto ao município e ao estado, enquanto antes uma simples autorização do cheikh era suficiente) e o preço da terra aumentou consideravelmente.

[31] Observa-se uma dificuldade real no Marrocos em desenvolver o deserto como uma atividade turística específica. Apesar das demandas locais, não há formação ou título oficial de guia – acompanhante do deserto (em oposição ao ambiente de montanha). A região Drâa-Tafilalt é chamada de “Atlas e vales” no novo plano de uso do território na oferta turística, enquanto “a rota do Majloul” do Programa de Desenvolvimento Territorial Sustentável dos Oasis do Tafilalt (POT) promove o ecoturismo no oásis.

[32] Trata-se do “Projeto de proteção e valorização para o turismo sustentável de zonas frágeis”, em erg Chebbi e Dayet Serji classificados como locais de interesse biológico e ecológico (SIBE) sobre 22.700 ha. Além da identificação e formação dos atores, o projeto busca também regulamentar a construção dos acampamentos que tendem a proliferar (cerca de trinta no erg Chegaga e sessenta no Chebbi, distribuídos em dez locais de “oásis”) restringindo as autorizações e definindo normas.

[33] Na Argélia, as autoridades locais de wilaya de Biskra proibiu a prática por causa das mortes que ocorreram, enquanto prometeram a criação de um centro de atendimento especializado. Este projeto nunca foi concretizado, não obteve o aval do Ministério da Saúde.

[34] Não existem estatísticas, nenhum monitoramento ou supervisão (nenhum hospital em Merzouga ou serviço especializado na região), nem estudos científicos nenhuma publicação sobre os banhos de areia medicinais na revista medical do Marrocos fundada em 1920, nenhuma informação no site da Sociedade marroquina de reumatologia, nenhuma comunicação no 26ª Congresso pan-árabe de Reumatologia realizada em março de 2016 em Marrakech, nada na Encontro Global Spa & Wellness realizado em Marrakech em 2014, etc.

[35] Nos últimos anos, devido ao aumento dos acidentes e mortes, foi feita uma sensibilização para os hóspedes do spa fazerem uma consulta médica no centro de saúde, onde os médicos também são enviados na temporada. Os banhos de areia podem causar acidentes cardiovasculares e são contra-indicados para as pessoas muito idosas, hipertensos, que sofrem de doenças cardiovasculares ou respiratórias (asma, diabetes, arteriosclerose, problemas renais, etc.). Pela primeira vez, foi aconselhado passar no consultório (medição da pressão arterial) antes de tomar um banho por dia, não cobrirem o peito, se rehidratarem regularmente e não ficarem mais de 5 minutos nas horas mais frescas do dia (antes de 11h ou depois das 16:30).

[36] Os três primeiros foram a cidade de Quebec no Canadá, Aguas Calientes no Peru e Bath na Inglaterra.

[37] A fauna típica dos Ergs (raposa, jerboa, gazela, etc.) já desapareceu de Chebbi devido principalmente aos veículos motorizados. As fossas dos acampamentos poluem as águas subterrâneas e as áreas de banho de areia. Há um estudo de viabilidade de um campo de golfe: os atores locais apoiam amplamente este projeto, dizendo que significaria um aumento no volume de água fornecida a partir da barragem H. Addakhil e concedida pelo Estado para Merzouga.

Autor

Laurent Gagnol

Maître de conférences

EA 2468 Discontinuités/Université d’Artois

Laurent.gagnol@univ-artois.fr

 

Pierre-Antoine Landel

Maître de conférences

UMR PACTE/Université Grenoble Alpes

pierre-antoine.landel@univ-grenoble-alpes.fr