Experiências turísticas e trajetórias de vida. Relações com a nostalgia

Philippe Bachimon

Université d'Avignon et des pays de Vaucluse

Jean-Michel Decroly

IGEAT – DGES – Université Libre de Bruxelles

Rémy Knafou

 

Pensamos que nos lembramos, com precisão, das férias de trinta anos atrás, cada dia, cada paisagem, cada emoção, mas elas são apenas imagens, sempre as mesmas, que nós selecionamos e rearranjamos de acordo com critérios muito pessoais, como uma câmera que filma apenas um ângulo, uma parte do cenário (…). Nosso cérebro apenas classifica e recorda o que nos interessa de acordo com nossa subjetividade.”

Michel Bussi, Maman a tort, Paris, Presses de la cité, 2015

 

Introdução

Ao longo das últimas duas décadas, um número crescente de trabalhos tem  sido dedicado, tanto no mundo anglo-saxão (para uma síntese ver, por exemplo Sharpley e Stone, 2012) quanto no francófono (ver, por exemplo, Decroly, 2015), à experiência turística. Para além da sua grande diversidade, estes têm em comum observar o que experimentam os turistas durante suas estadias ou deslocamentos. Neste sentido, eles consideram a experiência turística como um conjunto de condições psíquicas e físicas engendradas por aquilo que o indivíduo vive antes, durante e depois de uma estadia turística. As abordagens adotadas se inscrevem, por conseguinte, numa perspectiva sincrônica. Elas focalizam o que acontece no momento do deslocamento ou da estadia, levando em conta eventualmente os preparativos e as memórias resultantes. No entanto, esses trabalhos não dão atenção ao modo como a experiência instantânea se inscreve na trajetória de vida dos indivíduos, em que ela depende de uma experiência turística anterior e influi sobre as experiências posteriores.

Através de práticas turísticas que realiza durante sua vida, o indivíduo acumula experiências, confrontando-as com outros lugares, pessoas, culturas, situações … que lhes são familiares. Esse acúmulo de conhecimentos e competências turísticas retém cada vez mais a atenção à medida que chegam atualmente à aposentadoria as primeiras gerações que contam com uma maioria de membros que tiveram uma vida repleta de experiências turísticas variadas, cuja duração aproxima-se quantitativamente das experiências da vida cotidiana (Viard, 2006). Esta situação inédita convida a se questionar, por vezes, a singularidade da experiência turística em comparação com outras experiências de vida, sobre como se construiu esta experiência ao longo da vida, sobre a relação entre turismo e nostalgia, e, finalmente, sobre a influência que exercem conhecimentos e competências turísticos acumulados bem como sobre práticas futuras e sobre outros aspectos da existência.

Singularidades da experiência turística

Após as reflexões de MacCannell D. (1976), a experiência turística tem sido muitas vezes concebida como uma experiência singular, que é separada daquela que o indivíduo vive e sente na rotina de sua vida cotidiana. Ou seja, por meio de um deslocamento, trata-se de ir ao “encontro” de alteridades, de se confrontar com situações potencialmente diferentes daquelas do cotidiano (Laplante, 1996). Este confronto se inscreve, ele mesmo, em um momento de abertura para o indivíduo, um tempo aberto e um espaço aberto, em que as dificuldades  foram reduzidas a um mínimo (ou são  experimentadas como tal) enquanto a receptividade – curiosidade, atenção, interesse – está no seu optimum.

Neste sentido, a mobilidade turística pode dar lugar a várias bifurcações. Por autonomização temporária vis-à-vis o local de residência, ela permite distanciar-se dos papéis habitualmente exercidos, de pessoas conhecidas ou de instituições e normas sociais (Remy, 1996). Ao mesmo tempo, sua condição fez do turista um outsider no destino turístico que freqüenta, alguém que não tem uma relação de familiaridade com os lugares  (Relph, 1976). Esta dupla autonomização, em relação ao lugar de origem e àquele temporariamente habitado, abriria uma janela de liberdade. O deslocamento turístico seria assim propício à experimentação de novos estilos de vida, em comparação às maneiras de fazer que não são conhecidas (Löfgren, 1999) ou de  situações inesperadas (Urban, 2008). Mesmo se as viagens se apóiem sobre escolhas premeditadas (escolha da destinação, reserva dos meios de transporte ou de alojamento …), elas sempre envolvem algum imprevisto, relacionado a decisões de última hora, a encontros casuais, mas também a  percalços experimentados por muitos turistas (Urban, 2008).

Por essas razões ao menos, cada estadia turística dá origem a novas realizações, em termos de habilidades, de conhecimentos, mas também de emoções e de sensações. Para além do descanso, está o valor agregado das férias. A experiência constitui a capitalização e o retorno sobre o investimento. Assim, o turista certamente retorna a seu ponto de partida, mas diferente, o que se pode facilmente constatar por comparação, quando temos contato com aqueles que “não tiveram essa chance de partir.” Ela traz as memórias vividas para serem rememoradas, relatadas, mostradas (fotos, tatuagens …), guardadas, ou colecionadas. Essas representações mentais ou materiais que permanecem após a viagem turística não são utilizadas apenas como garantia de veracidade destinadas  aos outros. De forma recorrente, elas também lembram ao indivíduo que ele é capaz de integrar a diversidade e o inesperado em seu cotidiano (Löfgren, 1999).

Há pelo menos três décadas, a mais-valia experiencial do turismo fez objeto de uma aparição/lançamento irreversível no mercado. Isto se aplica a operadores – operadores turísticos, fornecedores de alojamento, gestores de atrações – que vendem não apenas um serviço, mas uma experiência. Este é também o significado que dão à  “experiência” uma parte da literatura anglo-saxónica (vide, por exemplo, Pine e Gilmore, 1999), para a qual trata-se de viver uma experiência prédeterminada pela disponibilização de um serviço turístico original, como, por exemplo, passar uma noite em uma prisão … abandonada. Obviamente o princípio acumulativo desempenha um papel crucial. Trata-se de multiplicar ou diversificar as estadias para acumular experiências de vida que alguém não viveria jamais, se pensarmos na prisão. “Migalhas” de experiências  de outras vidas (a pobreza de uma aldeia na região do Sahel, o ambiente natural de uma floresta “virgem” Equatorial …) para fazer algum sentido, alguma coerência, à sua.

Em um outro plano, as experiências turísticas têm uma função restauradora: ao reforçar, por outro lado, o caráter banal ou mesmo penoso do cotidiano, elas contribuem para tornar este último suportável (Bourdeau, 2011). Dois movimentos estão em curso aqui. Antes da viagem, primeiramente, durante o “tempo de hibernação”, enquanto o indivíduo está imerso em sua rotina, entra numa forma de letargia de sua imaginação, a antecipação de seu deslocamento que ainda vai ocorrer torna a existência suportável. Inserida no atual momento de aceleração social (Rosa, 2012), essa antecipação tem muitas vezes um papel de salvação, porque permite romper com a hiperatividade constitutiva do cotidiano. Com a sensação de ter tantas ocupações, de ter tanto trabalho, quando “não há tempo para pensar ou para ser  … não há tempo para nada, aliás! » ela responde pelo leitmotiv emanado de uma sabedoria popular consensual: « Vivement les vacances, vivement la retrait » . Após a estadia, em seguida, o indivíduo é susceptível de retirar de sua experiência turística uma força vital renovada que facilita a retomada de suas rotinas.

A natureza única da experiência do turismo, tem sido posta em questão desde a década de 1990, pela primeira vez sob os escritos de S. Lash e J. Urry (1994), e depois de seus admiradores (por exemplo Uriely, 2005). Inseridos na corrente pós-modernista, os primeiros, assim  como os segundos, apresentam, sob o termo  “ desdiferenciação”, a ideia de uma similaridade crescente entre a vida cotidiana e o turismo. Nas sociedades capitalistas desenvolvidas, cada indivíduo disporia de uma acessibilidade crescente, virtual ou real, às experiências características do turismo: descoberta, às vezes mesmo aprofundada, de “lugares altos do mundo” através de webcams ou de outras novas tecnologias de comunicação; possibilidade, em seu campo habitual de vida, de consumir produtos exóticos ou encontrar pessoas de países distantes, etc. Paralelamente, como sugerido por P. Bourdieau (2011) em seu trabalho sobre pós-turismo, os deslocamentos turísticos tendem a se parecer mais e mais  com um dia de trabalho, sobretudo tendo em conta a importância das tarefas confiadas ao próprio viajante na preparação e realização de sua estadia (pesquisa prévia de informações na internet, reserva de alojamentos, impressão de bilhetes, …), mas também o ativismo por vezes frenético que devem provar os turistas.

Mesmo assim, ainda que a vida cotidiana e o turismo estejam cada vez mais imbricados, não restam dúvidas de que os deslocamentos e estadias turísticas produzem  uma ruptura temporal e espacial nas vivências dos indivíduos. Esta ruptura, mesmo que se atenue, alimenta uma experiência que mantém traços singulares: para um cidadão de Bruxelas, uma refeição em um restaurante japonês em Tóquio, durante uma estadia no Japão, ou em Bruxelas, durante uma noite em um dia de semana, não vai produzir  emoções e sensações idênticas. Como sugere Löfgren (1999), o fato de se confrontar com a alteridade, não dentro, mas fora de seu cotidiano,  cria uma relação singular de indivíduos  com os produtos que consomem, com  as relações que engendram ou mantêm com os   lugares que eles freqüentam.

A construção da experiência turística

O valor agregado experiencial e a impressão de regeneração resultante de uma estadia turística se sedimenta nos corpos e nas mentes dos indivíduos. A agregação, ao longo do tempo, dessas impressões pós-viagens opera segundo um princípio cumulativo: todas elas se misturam a outras experiências de vida, elas alimentam um estoque sempre renovado de conhecimentos, de competências (Ceriani et al. 2004), mas também de lembranças. Na escala de uma vida, a experiência turística se constrói dentro de uma lógica de adição, mesmo quando a estadia tenha sido fracassada como lembra J-D Urban (2008). Esta lógica é por vezes reforçada pelas expectativas ligadas à estadia e por sua evocação posterior. À “obrigação de viajar” (Amirou, 2000), que incentiva, por vezes, em uma lógica stakhanovista,[1] a fazer da estadia um momento de enriquecimento experiencial, de descoberta de novos lugares, de novas culturas ou de uma natureza diferente, responde na verdade aos relatos do retorno, através do álbum de fotos, da projeção de vídeo ou da história.

O tempo dedicado ao turismo assume um papel crescente na vida individual, as sequências experienciais associadas se multiplicam de formas seriais. Apreendidas retrospectivamente essas seqüências aparecem como uma série de episódios de uma mesma história, pois o conteúdo é reescrito após sua passagem por sua re-construção memorial. A multiplicidade e diversidade de experiências turísticas vividas levam o indivíduo a esquecer a ordem factual ou a misturar as lembranças como em um estado somático, não sem deixar de  aproximar o turismo do sonho reificado (o turista não visita os destinos de seus sonhos!). No entanto, os fatos mais carregados de significado e as interpretações que são feitas se fossilizam por acomodarem a invariabilidade da resiliência. Da mesma forma, a questão memorial turística realizada é a mesma que ressurje em resposta à curiosidade dos outros.

As experiências turísticas se sucedem e se acumulam ao longo de uma vida cuja duração não pára de se alongar. Às experiências (formadoras) da infância, com os pais, da adolescência com  ou sem os pais, sucedem aquelas da idade adulta dentro das configurações familiares renovadas, depois da idade da aposentadoria, etc. Cada pessoa acumula, ao longo de sua vida, tais experiências, desigualmente numerosas e diversamente variadas segundo um grande número de fatores (econômicos, sociológicos, psicológicos, sanitários etc.), que se misturam,  através de processos de remomeração livres ou forçados, com aqueles de outros membros da família, amigos, ou, atualmente, membros das mesmas redes sociais. A crescente influência destes  últimas fez, de qualquer modo, evoluir  o estatuto da lembrança e da memória: uma parte do estoque memorial enterrado em nós é doravante exposto, sendo que antes fazia parte da ordem do privado ou mesmo de uma evoção íntima (Bachimon, 2013).

Se a construção cumulativa de experiências de vida queda pouco conhecida, isso não significa ser este um campo virgem de pesquisa. Desde os anos 1970, a questão é abordada no dominio dos estudos de lazer (Buse e Enos, 1977; Kelly, 1974). Os trabalhos realizados neste contexto enfatizam a influência decisiva das práticas da infância sobre as práticas futuras. Assim, vários estudos longitudinais mostram que as atividades praticadas na idade adulta, sejam elas sociais, artísticas ou desportivas, estão intimamente correlacionadas com aquelas realizadas durante a adolescência, e ainda mais fortemente quando foram praticadas regularmente nesta idade (Scott e Willis, 1989; 1998). Na época, este resultado foi interpretado em termos do modelo de ciclo de vida (Neugarten, 1977): face às múltiplas transformações às quais são confrontados ao envelhecer (união, nascimento dos filhos, evolução na renda, declínio das habilidades físicas …), os indivíduos perpetuam as estruturas mentais (ideias, preferências, habilidades) adquiridas durante a infância, o que lhes garante uma certa continuidade na condução da sua existência (Atchley, 1989).

É preciso recorrer aos anos 1990 para ver emergirem as primeiras pesquisas dedicadas especificamente ao turismo ao longo de toda uma vida [lifelong  tourism]. Estas se inserem em duas direções diferentes. No campo do marketing, em primeiro lugar, várias pesquisas destacam a influência de experiências passadas, especialmente as férias da infância e da adolescência sobre as escolhas posteriores de destinos, mas também de práticas turísticas (Mazursky 1989; Bojanic, 1992; Gitelson e Kerstetter, 1992). Por exemplo, uma pesquisa realizada com ex-alunos, com 55 anos ou mais, de uma universidade do nordeste dos Estados Unidos, R. e D. Gittelson Kerstetter (1992) constatou que 80% dos entrevistados voltaram ao menos uma vez durante a sua vida ao destino favorito de sua adolescência. Para interpretar estes resultados convergentes, os referidos pesquisadores  recorreram ao apego emocional à infância ou à natureza inercial da escolha dos consumidores (Gitelson e Crompton, 1984).

O “turismo de longa duração” também foi abordado sob uma perspectiva mais sociológica no contexto da análise de carreiras de turismo (Oppermann, 1995; Frändberg e Vilhelmson 2003; Frändberg de 2008. Guibert, 2016). O objetivo perseguido neste contexto é reconstruir, através de estudos longitudinais ou de histórias de vida, o encadeamento de estadias turísticas durante toda ou parte da trajetória de vida. Os resultados obtidos convergem em parte com aqueles das análises transversais realizadas no processo de tomada de decisão. L. Frändberg mostra ainda que, se o painel de destinações individuais se diversifica com o avançar da idade, particularmente em relação a migrações realizadas por indivíduos ou seus parentes, certos lugares são visitados regularmente desde a infância. Para a autora, a natureza repetitiva do chánvenas espacial[2] do turista deve-se menos a uma questão de ligação afetiva com os primeiros lugares que a uma lógica de rotinização no processo decisório. Ao considerarmos o trabalho de C. Lindh (1998), ela sugere que os turistas organizam os seus deslocamentos de acordo com  suas experiências anteriores e que quanto mais eles têm o hábito de  ir a um mesmo lugar, mais a tomada de decisão torna-se rotineira e impõe-se.

Como parte de uma investigação levada a cabo por meio de entrevista semi-estruturada com quarenta adultos angevinos, C. Guibert (2016), salienta a diversidade de trajetórias turísticas individuais. Embora reconhecendo o efeito indubitável das experiências de infância sobre as da vida adulta, ele observa igualmente, por meio de diversas pessoas entrevistadas, um aprendizado tardio das práticas turísticas, especialmente entre aqueles cujo meio meio profissional é agrícola e operário. Da mesma forma, ele observa, citando B. Lahire (2012), configurações turísticas “sob influência conjugal”, caracterizadas pela influência decisiva de um dos membros de um casal melhor dotado de experiências turísticas sobre a escolha das destinações e das práticas. Ao mobilizar uma chave de leitura bourdieusiana, C. Guibert (2016: 12) propõe uma interpretação convincente da construção da experiência turística. Sob este olhar, a experiência turística cumulativa se constrói “de acordo com os processos sociais realmente muito semelhantes aos estudados nas áreas de práticas culturais ou desportivas. (…). Se as aprendizagens turisticas geralmente começam na infância (no seio da família, na escola) e se continuam durante o envelhecimento dos indivíduos, as experiências socializadoras cumulativas ou, inversamente, as experiências socializadoras contraditórias, reforçam a ideia de que nada é finalmente linear, limitando de fato o alcance mecânico e essencialista das heranças culturais de família como único esquema explicativo”. Sob esta ótica, as práticas  turísticas realizadas em algum momento por um indivíduo remetem, por conseguinte, por vezes à reprodução de experiências anteriores, por vezes à invenção ou à descoberta de novas práticas, que podem estar eventualmente em ruptura com aquelas herdadas da socialização familiar. Vários fatores adquirem importância aqui: a pregnância variável, de acordo com círculos sociais e os indivíduos,  das aprendizagens da  infância, a diversidade de trajetórias individuais de vida (evolução da capacidade econômica pessoal,  escolha do cônjuge, configurações familiares, encontros amigáveis e profissionais), sem esquecer  a evolução do contexto turístico (modelos dominantes de práticas, características da oferta, custo e conforto dos transportes, etc.).

 

Turismo e nostalgia

As estreitas ligações identificadas entre as experiências turísticas realizadas em diferentes fases da trajetória de vida convidam a examinar com um olhar mais atento as interações entre a experiência turística acumulada, a construção da memória individual e a constituição do ser.

De acordo com a psicologia cognitiva contemporânea, a memória, longe de ser uma função mental homogênea seria organizada por vários sistemas independentes em interação (Van der Linden, 2003). Entre estes sistemas está a memória episódica, que é dedicada aos fatos pessoalmente vividos e a seu contexto espaço-temporal. De acordo com M. Conway (2005), os eventos episódicos mais proeminentes ou mais relevantes para o indivíduo são mantidos a longo prazo através da integração de um outro sistema de memória, memória autobiográfica. Esta última, que não é composta apenas de elementos episódicos, uma vez que ela inclui também os conhecimentos gerais sobre si mesmo (nomes das pessoas de seu relacionamento, por exemplo) originados da memória semântica, traz um conhecimento cumulativo, incluindo imagens, sentimentos, odores …. presentes durante a codificação. Dessa forma, a memória autobiográfica permite viajar no tempo, assim como  reviver experiências passadas que se projetam no futuro. Ela está  disponível para informar qualquer ação a ser tomada pelo indivíduo.

Codificação e conservação na memória autobiográfica de certos eventos, bem como  sua reconstrução posterior nas memórias, depende de forma estreita não apenas do que M. Conway chama de self conceitual, ou seja, o conjunto  de metas, crenças, desejos e emoções de um indivíduo, mas também as experiências que ele vive no presente. Neste sentido, se a memória autobiográfica contribui para a constituição do ser (ver, por exemplo, Duval et al., 2009), ela  também é  intimamente dependente do que é o indivíduo e do que ele experimenta em dado momento: os três elementos estão em interação recíproca. Há, portanto,  uma interferência contínua entre o memorial, o existencial e o experiencial. No campo que nos interessa aqui, isto significa às vezes  que, as  experiências turísticas presentes são influenciadas pela memória das passadas, e que a seleção pela memória ou o « soterramento » de eventos turísticos vividos como a reconstrução posterior de memórias, depende não apenas do “auto-conceito” mas também de experiências do presente. É isto que explica que a memória autobiográfica turística não é um reservatório que contém memórias estáveis ​​e fiéis às experiências vividas, mas um conjunto disperso de lembranças mais ou menos codificadas e que se reconstróem regularmente a posteriori. Quantas vezes somos nós atingidos pelas deformações memoriais induzidas por uma lembrança, ao compará-la com as de um ente querido. O retorno aos lugares da memória para lhes confortar produz, portanto, muito mais satisfação (aquela do confronto de uma lembrança com o real), que desencanto (os lugares mudaram e até mesmo os seus habitantes). A reminiscência, a memória dos lugares, a objetificação que pensamos conseguir obter, revela ser uma fonte de confusão se as experiências  de retorno ao passado se reiteram.

As lembranças da infância, ou pelo menos suas reminiscências, são muitas vezes consideradas como  fundadoras  de modos de ser e de agir, da personalidade e do senso de ser (Turmel, 1997; Conway e Pleydell-Pearce, 2000). Sem tentar uma psicanálise, sabemos a parte importante que as memórias das férias assumem nessas memórias de infância. Númerosos artigos consagrados à memória autobiográfica se  dedicam também a  uma evocação dessas memórias. Devido à natureza única da experiência turística, as primeiras férias passadas fora do lugar da vida habitual de que se lembram as crianças impregnam fortemente sua memória autobiográfica. Além de marcarem um primeiro alargamento do experiencial, elas lhe oferecerem a oportunidade de dar um significado concreto ao que não era conhecido de antemão a não ser pelas histórias de família, pelos livros, filmes ou pela mídia. A experiência turística original no exterior, nas montanhas, da guerra (visita a um campo de batalha), da deportação (visita a acampamentos) …, ainda que no melhor dos casos a criança não adquira mais que um conhecimento vago, dá um novo significado a esses territórios ou aos eventos que eles testemunharam. Remarcadamente, esta experiência torna-se um fato marcante.

Quando idealizadas, memórias de infância podem gerar uma nostalgia pessoal. Por muito tempo conhecida como uma patologia causada pelo exílio ou de qualquer forma pela distância do local de residência (Staszak, 2016), a nostalgia pessoal, ligada à experiência individual, é definida hoje como um sentimento ou uma emoção, envolvendo três variáveis: às vezes um vaga onda  regressiva (Bartholeyns, 2015), às vezes uma alegria melancólica (Bishop, 1995), ou ainda uma aspiração para recuperar ou reviver um momento anterior concebido como agradável (Boym 2001). Qualquer que seja a definição adotada, admite-se que, se a nostalgia se alimenta de memórias da infância, por outro lado ela orienta os caminhos do presente, por exemplo pela aquisição de objetos que testemunham um momento passado (Havlena e Holak , 1991) ou pela participação em atividades vivenciadas na infância (Fairley, 2003).

A nostalgia histórica, relativa ao passado coletivo, é um campo de investigação bem balizado na área dos estudos sobre turismo, em particular no contexto dos trabalhos consagrados aos  significados associados à  visita a locais patrimoniais (Cato e Santos, 2007; Dann 1994, 1998; Frow, 1991; Goulding, 2001; Graburn 1995; Hyoungong 2005) ou lugares que permitem que ele seja conectado com a família ou história étnica (McCain e Ray, 2003). No entanto, ainda sabemos pouco sobre a forma como as pessoas se lembram, se esqueçem, reinterpretam e atualizam seu próprio passado turístico (Timothy, 1997). Muitos trabalhos produzidos pelas ciências da gestão indicam que a nostalgia é um fator importante na tomada de decisões sobre os destinos e/ou às práticas, mesmo para os adultos jovens (ver, por exemplo, Robinson, 2015). Outras pesquisas enfocam as oportunidades regressivas que oferecem as experiências turísticas: Ryan (2010) constata que as praias fazem parte dos raros espaços onde os adultos podem, com tranquilidade, encontrar a criança que neles habita, e por isso, estar em contato com  suas lembranças de infância. De forma  mais detalhada, através de uma década de entrevistas aprofundadas com turistas idosos durante suas estadias na estação de Morecambe, no noroeste da Inglaterra, D. Jarrat e S. Gammon (2016) salientam a importância do sentimento de nostalgia não apenas na escolha do destino, mas sobretudo na experiência vivida no  lugar. Para os entrevistados, a estadia junto ao mar é uma oportunidade para lembrar as pessoas desaparecidas que fizeram diferença  em suas vidas, para recordar sua própria infância, mas também para tomar plenamente consciência  da passagem do tempo. Se o sentimento de perda predomina, ele não deixa de ser, todavia, temperado pelo sentimento que os entrevistados têm de inscrever sua própria estadia dentro de uma  continuidade: tornados pais e/ou avós, eles perpetuam a tradição, trazendo seus filhos e/ ou netos ao mar. Por fim, ao frequentar  um ambiente atemporal, simbolizado pelo mar e pela praia, os entrevistados sentem a sensação de fuga da rotina de suas vidas cotidianas. Sob esses diferentes ângulos, as estadias de antigos lugares de férias revelam uma geografia da devoção [géopiéte]. Criado pelo geógrafo humanista Yi-Fu Tuan (2006), este conceito refere-se à relação intensa, pessoal e introspectiva que o indivíduo pode ter com características geográficas específicas, em particular com marcas de suas próprias origens, lá onde nasceu e cresceu. Desta relação afetiva nascem sentimentos muito fortes, que contribuem notadamente para construção da identidade pessoal.

A atualização da memória pelo retorno a lugares de férias passadas é assim carregado  de vários significados. Para os indivíduos, trata-se de, em um mesmo movimento,  garantir que esses traços – e todas as lembranças que eles carregam – não desapareçam completamente, de estar em contato com os lugares que são carregados de significado para eles e de colocá-los em perspectiva, portanto, de relativizar as dificuldades e os sofrimentos do cotidiano. Sob esses três aspectos, o aparecimento de uma nostalgia turística constitui um contraponto à compressão espacial e temporal característica da pós-modernidade (Harvey, 2000). Esta constatação  faz eco à ideia defendida por C. Routledge (2016) segundo a qual a nostalgia individual, longe de ser uma doença psíquica, constituiria um recurso psicológico, que, quando mobilizada, permite dar um sentido à vida, apesar da natureza dolorosa ou triste da existência cotidiana. Isto é o que ele notadamente observou em comunidades migrantes: os episódios nostálgicos podem reduzir o estresse provocado  pela aculturação e podem ajudar a tornar o exílio suportável.

De uma forma metafórica, a figura do paraíso constitui-se não o núcleo central do imaginário turístico, pelo menos um dos principais componentes (Amirou, 2008). De longa data, os destinos turísticos  são promovidos e colocados no mercado, apelando  a referências edêmicas[3]: agentes de turismo veiculam imagens de um anti-mundo utópico e ucrônico[4],  um espaço primordial, uma ruptura com os conflitos, sofrimentos e injustiças do cotidiano (Bachimon, 2013). Este imaginário  cuidadosamente mantido  contribui para moldar o desejo de turistas: para eles, as práticas de mobilidade de lazer se inscrevem entre outras em uma busca pelo paraíso. Se a figura do Eden estrutura fortemente os imaginários e as práticas turísticas coletivas, sugerimos aqui que a nostalgia das viagens da  infância jogam um papel semelhante no nível individual. Através de sua idealização pela memória, elas se tornam metáforas de  um paraíso perdido original: o de um estado de felicidade, de felicidade simples, que se busca recuperar posteriormente.

O espaço turístico compreende, portanto, numerosos lugares onde a frequentação repousa, ao menos parcialmente, sobre a busca do “paraíso” perdido da infância. Estes lugares da nostalgia pessoal, vetores de turismo de raiz (root tourism), são variados: residências secundárias onde se passou férias na infância, residências de familiares situadas no país de origem dos migrantes, estações balneárias ou montanhas onde se deram as férias iniciais  da infância … Alguns se confundem com lugares de nostalgia  histórica, como os lugares de memória,  que recebem os turistas, por vezes, sobre marcas de sua própria história, por vezes com marcas de uma história coletiva.

Os lugares da nostalgia pessoal são portanto esses locais onde se vai porque foram previamente lugares de férias, por operarem um retorno ao passado. Retorno cíclico – e, portanto, fragmentado – que faz a função de um continuum, com situações variáveis às quais alguém retorna, ao contrário dos lugares congelados em seu abandono (friches touristiques[5], arrière-pays[6] abandonados) ou dos espaços profundamente transformados pela modernidade. A necessidade de não romper com o passado, acentuando a possibilidade de reinventá-lo, ainda que parcialmente, participa portanto da patrimonialização. A visita a lugares de nostalgia pessoal pode realmente levar a inscrever o abandono na materialidade (Bachimon, 2013). Este é o caso em que um terreno baldio é transformado em um lugar de memória. Apesar do interesse que ele oferece, esta reificação turística da resiliência constitui um aspecto relativamente pouco explorado sobre o desenvolvimento do turismo.

A aquisição de uma segunda residência, sucedânea idealizada da residência principal porque mantém distante as tensões diárias, inscreve-se igualmente na atualização da nostalgia pessoal. As medidas tomadas para a preparar [dénicher] para seu uso regular, implica que o indivíduo faça uso muitas vezes de suas memórias: ele relembra com nostalgia a casa de suas férias, aquela de seus pais (ou avós), onde passou os verões que pareciam dilatar-se em um tempo imóvel de dias uniformes, onde o sol brilhava … memórias em que a alternância meteorológica é desordenada e embelezada. Uma invariante em um tempo ideal, como congelado “para sempre” na memória. O residente secundário segue, assim, um caminho voluntarista de reapropriação nostálgica de sua juventude, certamente passada mas que ele não crê irremediavelmente perdida. Um caminho que consiste em reproduzir esses momentos de profunda felicidade (ou “vividos” a posteriori como tal), ao repetir essas férias fundadoras em um sucedâneo de seu lugar original. Um caminho ao qual seus filhos foram envolvidos. Eles ainda irão conhecer durante sua infância  as mesmas experiências (especialmente uma ligação “visceral” com o lugar) que seus pais. Eles terão uma identidade comum, concretizada por um lugar de ligação (um ponto fixo) em um território ao qual pode-se apegar em momentos difíceis (separação, mudança … e todas as outras formas de separação). Um refúgio em que alguém pode se sentir distante pela distância, mas não por pensamentos … para o qual sempre se retorna. Um canto secreto um pouco empoeirado como um sótão. A poeira tem a virtude de cobrir lembranças com um véu que se pode remover para encontrá-las como elas eram. Certamente alguém se entedia nas férias, e especialmente nas residências secundárias. Mas este tédio é também constitutivo do prazer retrospectivo. O tempo perdido, este tempo que se alonga e se dilui, revela-se ser uma inversão do cotidiano febril (eclético, altamente carregado, desesperado …). Esse entre-dois [estado de passagem, transitório] deixa um gosto, um sabor de emanações como o “odor de mirtilos em grandes cestas” a que se refere Aragon (1960), reminiscências que se encontram no sabor de um prato, no perfume ao longo de um caminho. Este momento de eternidade apaga o reverso desta experiência factual, uma vez que o presente foi deixado de lado, e o passado foi sublimado, idealizado para a reconstrução memorial. Esses momentos de reminiscências são importantes porque, quanto mais na medida em que são provocados e ritualizados (ao refazer a data fixa do churrasco familiar), eles constituem um parênteses (de tempos e cenários [e momentos (N.T.)] de renascimento) de reunificação fusional considerados essenciais para enfrentar um cotidiano que seria o seu inverso.

Quando alguém é conduzido pela nostalgia pessoal, a estadia repetida nos lugares já visitados anteriormente pode por vezes distorcer a relação com esses lugares. Com efeito, o imaginário amadurecido ao longo do tempo que se nutre de tempos em tempos a partir da experiência nos lugares revisitados, evoluiu muito mais em razão da evolução de objetivos e crenças individuais que da transformação dos próprios lugares (Jankelevitch 1983) individuais. Duas distorções podem surgir, distorções que podem ser combinadas, muito raramente serem compensadas, e às vezes levar a novas ramificações. Entre prazer egocêntrico e imperativo memorial  empurrando para o retorno aos lugares perdidos de vista desde a infância, há em primeiro lugar o risco de uma grande lacuna, que se manifesta entre um lugar que havia continuado a viver a sua vida e o mesmo lugar que permaneceu enterrado na memória como congelado em uma época passada. Em outras palavras, buscando  reaproximar-se da infância por meio de uma estadia em um lugar anteriormente frequentado, o indivíduo encontra  muitas vezes uma transformação radical do território que ele conheceu e idealizou em sua memória. Paradoxalmente, a decepção que resulta pode levá-lo a distanciar-se de sua infância, mesmo quando ele desejava aproximar-se dela. No entanto, esta primeira distorção não conduz necessariamente a um distanciamento, porque a nova experiência pode também ser uma recuperação do imaginário, uma reativação … que se torna, por sua vez, fundadora de lembranças misturadas … que permaneceram de suas lembranças de férias.

Experiência turística acumulada, representações mentais e escolhas de vida

Por ocasião da revisão de dois livros sobre a história do turismo nos Estados Unidos, A. Lew (2010: 568) enfatiza a influência essencial que suas experiências turísticas de infância tiveram sobre  sua orientação profissional posterior “Férias de verão em família  foram parte importante de minhas primeiras experiências, e podem ter contribuído para o meu interesse por turismo e viagem quando adulto tanto como uma vocação quanto [à minha] uma ocupação”. Através desta história, ele destaca o caráter  potencialmente transformador da experiência turística. As experiências sucessivas de viagem  não fazem mais que balizar  uma vida composta de uma série de episódios por vezes voltados ao trabalho e por vezes ao lazer  e ao turismo. Na verdade, elas contribuem também para mudar a perspectiva sobre a vida, sobre os lugares, os outros e sobre si mesmo, e por isso mesmo podem influenciar fortemente o curso da existência individual (Brown, 2009; Hampton, 2007).

Após J. Urry (1990), é comum admitir-se atualmente que a percepção da paisagem, daquela cujos componentes são o relevo, o urbanismo, a arquitetura, a natureza é fortemente associada à viagem. Por outro lado, é provável que o confronto com territórios exóticos levou à desvalorização urbanística e representacional dos subúrbios e do périurbano, tornados neste díptico não-lugares (Augé, 1992) que se associam ao funcional. Esta relação seqüencial com o ambiente não se dá sem retroações “positivas”. A combinação de experiências de villegiatura também influenciou o habitat habitual, e em primeiro lugar  as casas de subúrbio[7]  [‘pavillon’ de banlieu] desde sua aparição. Olhando para fotos antigas do entre-guerras o indivíduo é obrigado a ver que o modelo da casa já estava operando na construção do modo de vida (pequena casa de madeira, jardim ornamental rodeado por flores exóticas … ) sabendo desde já que a distância do centro permitia misturar uma proximidade roussoniana[8] com a natureza que havia antecipado o barracão onde se ia aos domingos à tarde algumas décadas antes. Finalmente, a casa suburbana pode ter funcionado como algo anterior (um substituto à saída em férias porque era necessário reembolsar o empréstimo), e um posterior às férias … um substituto a outros lugares entre duas estadas turísticas. A experiência turística induz assim a uma comparação positiva tendo em conta o cotidiano, mesmo ao preço de um  paradoxo. Pois se o outro lugar que convocamos em imaginação é mehor que a indiferença do lugar onde moramos, essa impressão não impede que se diga “eu não poderia viver lá” ou “eu só posso viver lá quando me aposentar.” Os lugares turísticos praticamente se reduzem a paisagens, contextualizações transitórias ou diferentes.

Acontece também que as experiências turísticas provocam verdadeiras mudanças de vida, especialmente no lugar da residência principal, por meio de uma migração definitiva ou de estabelecimento por vários meses do ano em um local de férias (ver por exemplo Frändberg 2008). Tais mudanças podem ocorrer em favor de uma bifurcação acentuada, que resulta de evento inesperado ou significativo. Ph. Duhamel (1997) mostrou que a repetitiva representação feita entre mulheres estrangeiras das Ilhas Baleares resultou, entre outras coisas, em um grande número de casamentos mistos entre mulheres da Europa do Norte e homens espanhóis, contraídos após uma estadia das primeiras.

Caso contrário, a migração para um local de estadia turística inscreve-se no quadro de um projeto preparado no longo prazo, porque existe, por definição, uma atração para locais turísticos, atração que pode estar na origem de um desejo de os habitar por um longo tempo. A mobilidade definitiva induzida pelo turismo, que alguns classificam como lifestyle migrations  (Benson, 2016), tornou-se um fenômeno de massa, notadamente sob a forma  de migrações de aposentadoria (King et al., 1998 ). As muitas obras dedicadas a essas últimas indicam que elas encontram seu terreno fértil em destinos turísticos nacionais e internacionais, tanto na Europa como na América do Norte (Decroly, 2003). As pesquisas realizadas com aposentados, quando o verão já se instalou nessas destinações, mostram que a escolha do novo local de residência é largamente condicionado por uma experiência turística 20anterior, em particular de estadias recorrentes em uma residência secundária.

A imbricação de experiências turísticas e trajetórias de vida

Após este percurso parcial, verifica-se que experiências turísticas são incorporadas nas trajetórias de vida. Para compreender as primeiras convém assim analisar as segundas e vice-versa.

Para além das aparências, cada hifenação turística instantânea não pode ser reduzida a um parêntesis temporal, mesmo que o experimental se construíu em grande parte na descontinuidade espaço-temporal que ela induz como interstício cíclico aumentado de uma dimensão retroativa quando se aspira a nostalgia. As representações de nossas trajetórias de vida se inventam sobre esta complementaridade da vida cotidiana e de sua ruptura turística. As férias representam um recuo, como se costuma dizer, metaforicamente, um “distanciamento” o qual diariamente tende a parecer muito repetitivo, sem a aspereza [as dificuldades do dia-a-dia], lancinante.  O turismo provedor de experiências poderia bem ser um dos tempos antigos  da construção dessas identidades sonhadas expressas em uma narrativa memorial distinta daqueles que nunca saem em férias. Primeiro, como  tempo privilegiado de receptividade, ele funciona como uma alternativa à rotina sofrida, reconhecidamente propícia  ao abatimento do senso comum, e permite sair do automatismo das tarefas repetitivas que é uma maneira de esquecer o tempo que passa por suportá-lo melhor.

Nós convergimos então a uma concepção paradoxal da experiência turística. Seria o  “soft” [a leveza] da experiência de vida adquirida entre parentêses e em um tempo curto e intenso que só viria a ser integral no momento da aposentadoria. Paradoxalmente, portanto, de uma experiência constitutiva necessariamente deslocada da realidade cotidiana, o “hard” de alguma forma. Seria ela então fornecedora de uma bipolaridade? Teriam-se lembranças de momentos selecionados, a memória de um universo ideal feito de uma praia de verão, do parque recreativo,da  ilha paradisíaca … um estoque de lembranças em baixa conexão com a nossa experiência habitual. Esta excepcionalidade sendo constitutiva de um imaginário deslocado aparentemente escolhido, quando o outro seria sofrido. A turistificação generalizada que marca nossas sociedades poderia, então, ser compreendida como uma tentativa de extenção  da magia turística (Picard, 2011) para a vida cotidiana. E assim como um princípio de controle, o preço ideológico a pagar, assim como uma crença religiosa, o anestésico que tornaria o cotidiano suportável.

O turismo de nostalgia pessoal não faz mais que amplificar esse fenômeno na incompletude de um retorno impossível ao passado. Nas palavras de Jankélévitch (1983): “O viajante (que) retorna ao seu ponto de partida, envelheceu nessa passagem! » e ele retorna a um lugar que não é o que ele esteve. Essa dupla mudança espaço-temporal representa de seu ponto de vista uma “abertura temporal na clausura espacial que apaixona  e patetisa a inquietude nostálgica.” Um círculo vicioso – aquele da rotina turística como retroação – que de alguma forma se é difícil de sair, a não ser com o risco da cesura do passado e certamente o enterro de memórias.

Variações experienciais

Os textos propostos nesta edição da Via @ fugiu em grande parte de uma abordagem da dimensão experencial turística em termos de trajetórias de vida, que tinha sido objeto da chamada original para publicação. Para esboçar o conteúdo desses textos e destacar sua relação com o fio condutor desse número, tomamos a estrutura acima adotada.

Os quatro primeiros textos inserem-se, com maior ou menor proximidade, no questionamento sobre a singularidade da experiência turística. Hecate Vergoupolos, antes de tudo, nos dá uma análise crítica estimulante de como a noção de experiência foi mobilizada no campo dos estudos do turismo. Depois de constatar que numerosas pesquisas são baseadas em uma concepção ampla e não discriminatória da experiência turística, como um “modo de apreensão de tudo o que acontece em uma situação turística”, o autor destaca duas tendências principais na definição dessa experiência. A primeira considera a experiência como um processo cumulativo: é às vezes o que se vive durante uma estadia e que o indivíduo toma como aprendizagem. Uma tal abordagem leva portanto a ligar intimamente experiência turística e trajetória de vida: a primeira, como “capital de conhecimento ou de hábitos”, se constrói e reconstrói continuamente ao longo do ciclo de vida. Uma segunda tendência conceitua, ao contrário, a experiência turística como um fenômeno instantâneo, um tempo para viver, que deve cumprir suas promessas fornecendo prazer e satisfação para o indivíduo. Hécate Vergopoulos questiona, em seguida, a ligação entre experiência turística e autenticidade, mostrando que uma experiência turística, como uma maneira de se relacionar com o mundo turistificado, tem, atualmente, uma característica autêntica, independentemente das características da oferta: “alguém pode, assim, ser genuinamente desapontado mediante um simulacro que se reconheça como tal. “

O artigo de Laurent Ganol e Pierre-Antoine Landel sobre a valorização turística de dunas de areia no deserto marroquino questiona igualmente a natureza singular da experiência turística. Ele mostra que l’erg Chebbi, próximo a Merzouga, não é apenas o quadro de excursões guiadas, mas também o suporte de banhos de areia com finalidade terapêutica. Longe de ser uma especificidade marroquina, esses banhos, que são semelhantes a um “termalismo” seco, são praticados pelos turistas marroquinos e internacionais interessados ​em se beneficiar das qualidades terapêuticas atribuídas à areia Merzouga. Sob pelo menos dois aspectos, a imersão do corpo nas dunas de lérg Chebbi consitui uma experiência singular, uma ruptura com rotinas cotidianas. Em primeiro lugar, o ato em si propicia uma sensação inédita, que contrasta com aquelas que podem fornecer outras práticas com finalidades terapêuticas ou de bem-estar, particularmente aquelas praticadas no tempo e nos espaços do cotidiano, como a sauna ou os banhos de vapor. Em seguida, essas sensações são, de alguma forma, enriquecidas tanto pelos significados que os turistas atribuem ao quadro físico e social em que as mesmas são realizadas como pelos serviços que a população local oferece (da venda do leite de camelo à  visita aos mausoléus dos santos de Tafilalt), a fim de simular “um ambiente saudável e autêntico considerado como sendo aquele das origens beduínas”.

O artigo de Juliet Augerot sobre as representações mentais do sítio de Angkor leva por sua vez a matizar a natureza singular da experiência turística. A autora  enfatiza, com efeito, que  jovens turistas tomam contato [com essas representações mentais] bastante cedo, seja em cursos, seja por meio de livros escolares ou da biblioteca, ou ainda por meio de reportagens.. O sítio em si é essencialmente uma abstração literária, cinematográfica … e, finalmente, uma imagem mental. E como nos lembra a autora, o sítio é confrontado durante sua experimentação turística à sua conformidade com as representações que têm os visitantes. A satisfação ou a decepção da experiência vem na sequência. Por esta razão, os gestores do sítio retiraram tudo aquilo que se pode esconder de um presente não desejado, neste caso, a existência de populações que vivem dentro e ao redor das ruínas, afim de lhe dar a solenidade de um objeto fixo fora do tempo correspondente à demanda memorial realista. Essas ruínas seriam, então, a memória morta de uma civilização antiga, desaparecida, apartada do presente. Esta cisão é importante para a conservação de lugares levados a despertar somente na ocasião das visitas, ou da visita turística de  interpretação. Reina então um silêncio atento por parte do grupo. Uma ruína é um lugar sagrado apresentando um mínimo de interferências com o exterior … ainda que seus habitantes, que constituem o interior vivente, ou a continuidade com o antigo tempo que se perpetua pela tradição, tenham ido morar em lugares distantes.  Esta desafetação se faz por conseguinte, por conformismo.

O artigo de Rémy Tremblay sobre “Floribec”, o espaço de migrantes e turistas de Quebec  estabelecidos na Flórida,  leva igualmente a matizar a singularidade da experiência turística. Para o duplo jogo de uma antiga  imigração laboral desde os anos 1930, quando os grandes empreendimentos de trabalho para limpar os pântanos da Flórida, e da frequência regular de turistas de Quebec, constituíu-se  nas cidades de Hollywood, de Dania e de Hallandale, na periferia leste da região metropolitana de Miami, uma concentração de empresas que oferecem produtos e serviços destinados aos clientes de Quebec. Esta concentração forma uma “ilha étnica”. Pela língua utilizada, os produtos vendidos e o estilo arquitectónico em vigor, esta ilha contribui para reduzir a alteridade vivida por turistas da Belle Province quando eles visitam a Flórida. Neste sentido, ele aproxima a experiência dos turistas no lugar à sua vida cotidiana, em seus lugares de origem.

Através de sua análise histórica das colônias de férias estabelecidas em Rimini, na Itália, Fiorella Dallari contribui para o campo pouco explorado do turismo de infância, consequentemente, àquele da construção cumulativa da experiência turística. Para as gerações anteriores aos subsídios de férias, as colônias de férias constituíram a primeira experiência dada às crianças de acesso aos lazeres  fora do círculo familiar da residência  ou da villegiatura. E sabe-se que o fascismo e as ditaduras foram tempos privilegiados de doutrinação, concentrando-se sobre os efeitos da retirada de jovens adolescentes do seio da família. Mas as colônias eram também aquelas das cidades populares. O “Party” (subentendido “comunista”) na cabeça dos trabalhadores comunistas tinha ainda promovido  suas colônias municipais de verão (com seus “observadores”) para, por vezes, contrabalançar aquelas dos « escoteiros das paraquórias » Pensamentos políticos e doutrinários ulteriores marcaram assim a colônia desde a experiência coletiva, ao romper a tutela maternal da infância, como um  rito de transição. O banho no rio e no mar, com o rito de passagem da quase nudez e da aprendizagem  da natação, e  pela separação dos sexos, manteve-se como destaque de uma experiência coletivista (aquela  de um grupo confiado a um monitor, dormindo em dormitórios e comendo na cantina). A experiência da comunidade será estendida aos Albergues da Juventude e aos Clubes de férias (o Club Med composto por GM (membros gentis) foi durante um longo tempo comunitarista) devendo     permanecer segundo os promotores a memória da juventude fundadora de uma vida adulta altruísta a serviço de seu país.

A história de Aimé Vincent, industrial têxtil do início do século XX, coletada por Franck Petit, alimenta segundo ele a reflexão sobre a relação entre turismo e nostalgia. Na verdade, ela evoca uma viagem familiar fundadora de uma memória familiar, a um destino colonial. O dito Aimé parte para a descoberta com sua família para as colônias  da África  no início do século XX. Esta viagem não se fez sem hesitações quanto a seu estabelecimento, no curso de um período em que ele estuda as possibilidades de se estabelecer em Constantine e consulta no local alguns notáveis. Ele não se instalará finalmente, mas a lembrança desta viagem a casa de seus filhos há algo de iniciático. É um país de sonho onde se adquire de forma compartilhada uma memória familiar. Ela é feita de “curiosidades”, os aspectos mais superficiais e exóticos que são a paisagem, o folclore, os “autótocnes” … e os elementos da modernidade colonial como as ferrovias, as estradas, os colonos. A empreitada de Franck Petit, um descendente de Aimé Vincent, em publicar (parcialmente e com comentários) este texto familiar inscreve-se  em um desejo de tornar público um texto que permanecera na privacidade da memória familiar. O diário de Aimé Vincent continua a ser um episódio feliz no alvorecer do século XX, a montante das duas guerras mundiais que irão mover esta família do leste da França. Um episódio que particularmente não se desejsa enterrar no esquecimento da rotina diária e os episódios mais tristes que se seguem. Segue, uma referência nas conversas: “Você sabe que temos falhado em viver na Argélia! “… e este passado anterior, esta profecia retrospectiva não realizada, fará todo sentido durante a descolonização que ocorrerá 50 anos após essa viagem”. Finalmente Aimée tinha feito a escolha certa, porque estaríamos hoje na iminência de sermos repatriados.” O ato faltante, a viagem turística que poderia ter continuado em uma emigração,  tem valor interpretativo e identidade. Ele tem mesmo neste caso um valor muito positivo de uma ligação indissolúvel com o Norte de África, onde os descendentes de Aimée seguirão os seus passos. Pois estamos em um país conhecido: o diário (como as fotos que o acompanham e são armazenadas em uma caixa) constitui um refúgio fixo. Refúgios no entanto relativos, porque os textos envelhecem, as fotos amarelam enquanto as poses feitas pelos personagens diante da fotografia também parecem datadas. Mas Franck Petit, ao visitar a Tunísia nos disse recuperar a fotografia daquela cidadela com o mesmo ângulo de visão ou tentado encontrar os descendentes dos autóctones fotografados. Assim as trajetórias turísticas dos descendentes vêm por vezes inscrever-se sobre aquelas de seus antepassados ainda mais porque elas poderiam ter sido seus próprias trajetórias de vida comum. Este turismo de nostalgia tomou agora uma grande amplitude na medida em que é uma extensão cultural do turismo de afinidade.

O texto de Joan Carles Membrado, Raquel Huete e Alejandro Mantecón sobre o turismo residencial na Espanha vem  ilustrar as relações entre  experiência turística cumulativa e escolhas de vida. Após destacar a amplitude do fenômeno da  instalação de idosos do norte da Europa na costa mediterrânea da Espanha (aumento de 7,5 vezes de aposentados europeus na Espanha entre 1991 e 2002), os autores destacam seus efeitos substanciais sobre a paisagem, o imobiliário, o ambiente e as estruturas das atividades na Costa Brava. O turismo residencial não tem apenas contribuído para a concretização da costa, mas também alimentou a bolha imobiliária espanhola, que estourou em 2008, exaurindo a economia nacional, desestabilizando sua governança, e mudando o modo de vida dos espanhóis. A ausência de controle durante 20 anos da instalação de aposentados impactara igualmente   o ambiente costeiro, ao modificar o emprego local, dominado hoje em dia pela prestação de serviços. Este crescimento suburbano irá também levar à desqualificação da experiência turística de aposentados  confrontados com intermináveis canteiros de obras em sua vizinhança e, consequentemente, para a deterioração de sua qualidade de vida, devido à densificação. Também esta urbanização ligada diretamente  e indiretamente ao turismo  desvalorizou, ela mesma, finalmente, o destino heliotrópico em função do alto consumo de água, lá onde ela é rara, e de energia, mantidas cobranças elevadas, juntamante com os problemas de congestionamento urbano, sem que  qualquer política de serviço público fosse levada a cabo e feito a estadia menos agradável em um ambiente em degradação. Esse declínio da destinação e da experiência turística participou também da deterioração do cotidiano dos próprios espanhóis. Por haver participado da folia especulativa imobiliária turística, estando altamente endividadas e tendo perdido seus investimentos, famílias inteiras  passaram a viver seu cotidiano no apartamento familiar apertados junto com seus pais, às vezes nos seus quartos de infância e são, assim, para as pessoas mais jovens afetadas pelo desemprego, forçados a viver em um “néo-celibato”. Este é o reverso de uma trajetória turístico-imobiliária  paradoxal que ainda se desenha.

Fechando a secção temática desta edição, Anna María Fernández Poncela propõe centrar   o interesse no olhar que têm as crianças e adolescentes que vivem em um destino turístico (Huasca de Ocampo, na província de Hidalgo, no México) sobre a experiência que têm os turistas.  Parece que alunos do ensino público que foram pesquisados ​​estão conscientes de seu patrimônio em termos das visitas turísticas de que ele é objeto e que eles observam com um certo distanciamento mas que lhe dão um valor (econômico e cultural) muito positivo, especialmente quando se aproximam da idade adulta. A experiência turística de visitantes que os jovens cruzam na rua, na saída da escola, da  faculdade ou do liceu, revela aos jovens de Huasca de Ocampo o interesse que seu território representa para o resto do mundo. Este olhar exterior é então mobilizado para a constituição da imagem que os jovens têm de si mesmos e de seu ambiente.  Constatando que a experiência dos outros reflete sobre a trajetória de vida daqueles que são visitados, Anna María  Fernández Poncela destaca assim uma forma singular de imbricação entre experiências turísticas e trajetórias de vida.

No conjunto, poderíamos reter desse número que a aparente simplicidade do ciclo turístico, uma viagem de ida e volta, pode ser assimilada na duração de uma existência, por sua repetição e pelo acúmulo de experiências em um movimento espiral. O turista retorna ao seu ponto de partida com uma nova experiência que se junta às anteriores e que serve de ponto  de partida às seguintes. Ao retornar com maior frequencia possível a sua segunda residência, retorna-se aos lugares de férias de sua juventude, evitando-se tal e tal lugar onde a experiência foi negativa … Bem sabido, não podemos ficar neste aspecto mecanicista, pois a memória, e, particularmente, aquelas relativas às férias, é seletiva, as lembranças não são mais que a parte emergente –  reminiscências fortuitas ou provocadas – enquanto outras experiências permanecerão guardadas no inconsciente. A memória é sobretudo uma desconstrução/reconstrução do factual das férias em um estado de excepcionalidade, na verdade, um tempo propício para a fabricação de marcadores salientes sobre os quais ela se consolida.

[1] Termo referente a um movimento de propaganda soviética que pregava a apologia ao trabalhador produtvio e dedicado a seu trabalho. O movimento ressaltava a experiência de Alekseï Stakhanov, que chegara a produzir em um mina 14 vezes a cota de mineiro comum [N.T.]

[2] “Chavenás” é uma xícara ou uma taça. A autora parece fazer refência ao hábito do chá [N.T.]

[3] Referente ao Eden [N.T.]

[4] Referente à “ucronia”. Ucronia é um gênero da literatura similar à ficção científica sem marcação clara do tempo, podendo se remeter ao passado (Cf, Aurélio, 2006) [N.T.]

[5] Lugares abandonados pelo turismo [N.T.]

[6] Em inglês, significa “hinterland”. Seria um possível equivalente, em português, de sertão. Em francês, designa mais precisamente uma região continental por trás de uma região costeira em que um porto exerce influência (Cf. Petit Robert, 2009). [N.T.]

[7] O autor faz referência a uma casa padrão de subúrbio. Uma casa modesta e pequena, com um pequeno jardim, que não chega a ter a aparência de uma casa humilde mas não apresenta nenhuma referência ao luxo, sendo, ao contrário, bastante repetitiva na paisagem do subúrbio [N.T.].

[8] Relativo a Rousseau.

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Tradução Francês > Português

Rita de Cássia Ariza da Cruz

Larissa Lira