Mototurismo: Geografias renovadas de um fenômeno marginal

Jean Scol

 

Resumo

O mototurismo corresponde frequentemente a práticas marginais e códigos particulares para os quais a estrada, o ato de pilotar e a camaradagem desempenham papéis essenciais. As concentrações são um exemplo representativo das especificidades e do caráter marginal deste tipo de turismo. O mototurismo foi, aliás, por muito tempo ignorado ou rejeitado pelos territórios e pelos profissionais do turismo que tinham uma imagem negativa da motocicleta e do motociclismo. Mas os motociclistas mudaram. Eles são, em geral, mais velhos que antes, bem inseridos no seio da sociedade civil e dispõem frequentemente de rendimentos elevados. Representam, portanto, uma clientela turística de elevado potencial que convém atrair por meio da oferta de produtos e serviços adaptados às suas necessidades e especificidades. Tais produtos e serviços, oferecidos pelas coletividades, pelos profissionais ou pelo mundo associativo, adquirem sobretudo a forma de itinerários dedicados ou de hospedagens identificadas ou certificadas para motociclistas. Esta clientela vê, também, a multiplicação das operadoras de turismo especializadas. Da simples excursão regional a uma verdadeira volta ao mundo, as viagens vendidas aos motociclistas pelas operadoras geralmente respondem aos critérios da aventura, do esporte ou do luxo. Se, por um lado, muitos destinos propostos confirmam uma cartografia clássica do turismo mundial, outros – mais originais e marginais – se inserem em uma cartografia ao menos em parte renovada.

 

Palavras-chave: Motocicleta, turismo, códigos, estrada, concentração, atores, territórios, itinerários, hospedagem, certificações, operadoras de turismo, destinos, aventura, geografia

 

 

Introduction

A motocicleta[1], ainda que seja considerada um modo de deslocamento marginal (CERTU, 2010)[2] face ao todo poderoso automóvel, é utilizada por dezenas de milhões de europeus, dentre os quais alguns milhões de franceses[3]. Empregada para a realização de deslocamentos cotidianos ou no âmbito dos lazeres, a motocicleta pode também ser utilizada para fins turísticos. Ela suscita, inclusive, práticas turísticas particulares cujos sentidos remetem às raízes do termo turismo.

As instituições e os profissionais do setor, embora tenham negligenciado – se não temido ou evitado – durante muito tempo esta forma de turismo, se deram conta nos últimos anos do interesse econômico que pode representar o mototurismo e passaram a consagrar-lhe, a partir de então, uma atenção crescente. Assim, esta contribuição se propõe a pôr em evidência as fortes ligações entre a motocicleta e o turismo, e a mostrar que o mototurismo participa, inclusive, da própria noção de viagem. Trata-se, também, de mostrar a importância da estrada como objeto de turismo, bem como a existência de itinerários e de destinos míticos para o motociclista viajante. O artigo revela, ainda, um interesse pelas práticas turísticas específicas observadas entre os motociclistas. Questiona, por fim, as razões e as formas do crescente interesse dos territórios turísticos e dos profissionais pelo mototurismo. Os trabalhos de pesquisa sobre o fenômeno do motociclismo são raros (Delignières e Régnault, 2007) e, na maioria das vezes, têm origem na sociologia, na antropologia ou em estudos relativos à segurança rodoviária. Aqueles que evocam o turismo dos motociclistas são quase inexistentes, com algumas exceções (Broughton e Walker, 2009; Walker, 2010). Nossas próprias pesquisas se apoiam, portanto, sobre a escassa bibliografia disponível sobre o tema, mas incluem as contribuições relativas ao turismo em geral e ao turismo esportivo e de aventura em particular. Elas se estabelecem, também, fortemente sobre a análise de um amplo corpus de revistas especializadas sobre motociclismo, de sítios da Internet, de blogs ou de obras nas quais se encontram relatos de viagens motociclísticas, bem como de várias centenas de brochuras impressas ou sítios web de operadoras especializadas em viagens de motocicletas. Elas exploram as múltiplas observações realizadas no âmbito de nossas próprias experiências como motociclistas viajantes ou como participantes dos vários grandes eventos mototurísticos, como é o caso das grandes concentrações de Millevaches (2011 et 2012), de Altes Elefententreffen (2011) ou de Tententreffen (2014). Observações fundamentadas pela realização de uma pesquisa (e posterior tratamento dos dados) conduzida durante estes mesmos eventos a partir de uma amostra aleatória de 200 motociclistas, bem como por várias dezenas de entrevistas mais ou menos diretivas realizadas com motociclistas, motociclistas viajantes, profissionais dos setores público, privado e associativo do turismo e jornalistas da impressa especializada em motociclismo.

O turismo e a motocicleta : um casal legítimo?

Para o grande público, como para muitos dos dirigentes políticos, legisladores ou responsáveis pela segurança rodoviária, as motocicletas são, antes de tudo, instrumentos muito rápidos, muito barulhentos, muito poluentes e muito perigosos. Elas seriam, além disso, conduzidas por marginais equipados com capacetes, botas e roupas de couro, dificilmente controláveis e, com frequência, delinquentes (Duret, 2005; Codron, 2006; Thompson, 2013).  É clichê que se tem da motocicleta e do motociclista, fixada pelo cinema (Morsiani, 2013) dos anos 1950-1960 ou 1970 (A equipe selvagem – L’équipé sauvage, em francês – em 1953[4]; A agressão – L’agression, em francês – em 1975[5], por exemplo) e ainda regularmente apresentada com destaque nas produções mais recentes (Filhos da Anarquia – Sons of Anarchy[6], em inglês, por exemplo). Na iconografia do cinema, o motociclista é, pois, muitas vezes o anti-herói, o vilão[7]. Esta má reputação é ainda propagada sob a rubrica policial da imprensa em geral. Isto se verifica, também, nas críticas de certos responsáveis pelas políticas de segurança rodoviária que veem as motocicletas como prejudiciais aos bons resultados de tais políticas.

Entretanto, para aqueles e aquelas que a utilizam, a motocicleta é, antes de tudo, um formidável modo de deslocamento, sinônimo de liberdade, de encontros e de… viagens (Tesson, 2015; Lobo, 2013). Para os motociclistas, a noção de viagem engloba todo(s) seu(s) sentido(s). Com efeito, a tendência geral que se observa entre as pessoas que se deslocam no âmbito de seus lazeres e, portanto, do turismo, é sobretudo marcada pelo desejo de contração do tempo de deslocamento, geralmente percebido como perda de tempo. Se deslocar, por vezes sobre (muito) grandes distâncias, mas passar o mínimo de tempo na estrada, sobre os trilhos, no ar ou sobre o mar tornou-se o dogma, a norma do viajante moderno. Finalmente, a viagem frequentemente se resumiria a passar de um ponto (de residência, de partida) a outro ponto (o destino). Ela não é mais que um simples deslocamento. Ao contrário desta concepção, para o motociclista, esta viagem que o conduz ao destino não é percebido como um aborrecimento, mas como um tempo escolhido. Ela é vivida com interesse. Ela é uma itinerância buscada e reivindicada. Ela define um percurso, etapas, um circuito, um verdadeiro tour. Por estas razões, o deslocamento por motocicleta é realmente um ato de turismo no sentido literal do termo (Deprest, 1997; Boyer, 1999). Um caráter, de outra parte, reforçado pela busca de experiências fortes, de descobertas e de iniciações ainda comumente reivindicadas pelos motociclistas viajantes.

O mototurismo existe, portanto, de forma indiscutível, e esta prática é, ainda, reconhecida, promovida e valorizada no âmbito das federações nacionais e internacionais de motociclismo. Tais organizações, inicialmente responsáveis pelos esportes motociclísticos, passaram a incorporar Comissões de Turismo (e de Lazeres). É assim, por exemplo, que a Federação Francesa de Motociclismo – FFM (Fédération Française de Motocyclisme, em francês) organiza um campeonato anual de turismo[8], enquanto-que a Federação Internacional de Motociclismo – FIM (Fédération Internationale de Motocyclisme, em francês) programa, a cada ano, várias dezenas de encontros e circuitos turísticos para os motociclistas afiliados.

Estes fortes laços entre turismo e motociclismo são o ponto de partida de práticas turísticas absolutamente específicas e, com frequência, marginais.

O apelo da estrada

Fazer a escolha por um deslocamento mototurístico significa escolher pegar na estrada. O deslocamento se torna, então, tão importante quanto o destino – ele se torna o destino: ” [para os motociclistas] a estrada que conduz ao destino pode ser mais importante que o próprio destino ” (Walker, 2010: 156). Um dos componentes principais e recorrentes do mototurismo é, portanto, a estrada como objeto físico a ser consumido, ou mesmo de desafiar e vencer: os motociclistas dirão “de vivê-la”.

O trecho a seguir, de um artigo publicado na revista mensal Moto Magazine sobre uma viagem de motocicleta na Patagônia, ilustra perfeitamente a relação particular que se estabelece entre o motociclista e a estrada: “[…] Ainda que as linhas regulares de ônibus a utilizem, o sul da estrada 40 (Argentina)[9] constitui o domínio privilegiado dos aventureiros. Pois, em matéria de estrada, trata-se de uma pista que tem a reputação de ser difícil, além de ser monótona. Margeando a fronteira oeste do país, muitas vezes a poucos quilômetros dos Andes, ela se constitui um desafio para muitos motociclistas. Tendo como maior dificuldade um trecho de 650 quilômetros praticamente deserto […] Ao fim, como quase sempre, a satisfação « de tê-la percorrido ». Simplesmente. E de ter podido contemplar alguns tesouros espalhados pela Senhora Natureza ao longo deste eixo. […]O suficiente para descansar dos seus esforços em cenários grandiosos. “ (Moto Magazine  n° 263 de dezembro de 2009 – janeiro de 2010: 109)

A estrada sobre motocicleta é, assim, aquela que proporciona o prazer de rodar:  “A motocicleta, o carro antigo… são excelentes meios de renovar o prazer de rodar “ (Chaspoul, 2011: 5). Ela deve, sobretudo, oferecer belas curvas e mudanças de níveis que evidenciem os prazeres e qualidades da pilotagem: ” Pilotar uma motocicleta requer uma habilidade muito maior do que dirigir um carro e, para muitos motociclistas, pôr à prova sua própria qualidade de piloto é um desafio altamente motivador ” (Walker, 2010: 148). Esta estrada deve, também, oferecer paisagens de qualidade. Assim, os mototuristas evitam, na medida do possível, a monotonia dos eixos rodoviários e das grandes estradas nacionais. Eles preferem as pequenas estradas, aliás, normalmente qualificadas como turísticas nos mapas e guias de viagem. Eles privilegiam as estradas e regiões de montanha, pois são elas que oferecem o máximo de curvas “O verdadeiro prazer da viagem são as curvas! ” (slogan publicitário do fabricante de motos austríaco KTM durante a primavera de 2015), de desníveis e exigem o máximo de tecnicidade na pilotagem (Duret P., 2005).

Os recentes Guias Michelin “França: 100 viagens de motocicleta” – “France: 100 virées à moto”, em francês (Orain, 2013) e “Europe: os Alpes sobre motocicleta” – “Europe: les Alpes à moto”, em francês (Lecoutre e Dautheville, 2011) ilustram esta busca pelo prazer da pilotagem no turismo motociclístico. Cada itinerário proposto associa o prazer da pilotagem às descobertas turísticas. Seus autores fazem uma apologia inequívoca da condução de uma motocicleta sobre as estradas de montanha: “profusão de curvas e rotas pouco frequentadas fazem da alta montanha um playground ideal para o motociclista em busca de grandes espaços e de trajetórias retilíneas” (Lecoutre e Dautheville, 2011: 11). Na Alemanha, os 46 guias de mototurismo das Edições Bruckmann são também amplamente consagrados às regiões de montanha. Entre eles, 28 são inteiramente consagrados ao tema e 18 o abordam de forma parcial.

De outro lado, a atração da estrada como elemento de turismo e de prazer completo é regularmente evocada nas publicidades e slogans dos organizadores de viagens e de circuitos mototurísticos: “não é o fim da estrada que interessa, mas sim a própria estrada” (slogan da agência de mototurismo T3). Como se vê também nas publicações de (alguns) territórios que começam, na França por exemplo, a se interessar por este tipo de turismo[10]. A maioria corresponde às regiões de montanha que promovem o caráter sinuoso de suas redes rodoviárias apto a excitar o prazer de pilotar” Este departamento alpino… [oferece] …quilômetros de rotas sinuosas. É um dos departamentos da França que mais possuem passagens de montanhas[11] (cols, em francês)[12]“.

Se a estrada pode ser vivenciada como um objetivo de viagem como tal, esta mesma estrada representa um verdadeiro itinerário e conduz os motociclistas a um objetivo final que, com frequência, marcará… o começo do retorno.

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Figura 1. Rodar, a estrada, objetivo essenciais do mototurismo
Fonte: Jean Scol, Cidade de Millevaches, Corrèze, França, 8 de dezembro de 2012.
Rodar (desacompanhado ou em grupo) e pilotar sua motocicleta são motivações essenciais do mototurismo. Trata-se frequentemente de percorrer centenas – ou até milhares – de quilômetros, pelo simples prazer de "fazê-lo". Rodar por vezes em condições muito difíceis; sobre estradas ou em direção a destinos míticos, ou simplesmente para encontrar outros motociclistas.

Itinerários e destinos míticos

Já foi mencionada na parte precedente a importância da estrada como objeto de turismo pelos motociclistas. Assim, muitas vezes, o mototurismo é uma itinerância contínua, ou cuja finalidade é atingir um objetivo final específico, com frequência carregado de um forte simbolismo. Estes imaginários e destinos alimentam a mitologia motociclística e a da viagem de motocicleta. Existem, portanto, itinerários e destinações míticas para os motociclistas. Fora da Europa, evoca-se a célebre Rota 66, que liga os Estados Unidos da América – EUA de leste a oeste, de Chicago até Los Angeles. Ela é, anualmente, percorrida em um sentido ou em outro, por milhares de bikers[13] montando reluzentes máquinas cromadas. Alguns vão da Europa para se embebedar de um sonho americano feito de grandes espaços naturais ao som de música country ou de Rock’n roll. Outros são mais sensíveis à lembrança de Peter Fonda[14] e de Dennis Hopper[15] que, no filme Easy Rider[16], percorrem a Rota Dixie[17] de Miami em direção à Califórnia sobre suas motocicletas choppers[18] (cf. figura 2). Ao sul do continente, é a estrada Panamericana que, ao longo de milhares de quilômetros, conduz os motociclistas do mundo inteiro em direção a Ushuaia, a cidade mais austral das Américas.

Quanto à África, parece tratar-se de um vasto playground para os motociclistas europeus em pistas de má qualidade e estradas improváveis. Elas os conduzem, entre outros percursos e destinos, a atravessar as grandes extensões desérticas ou subdesérticas do Saara e de suas margens, normalmente até Dakar. Um itinerário que se tornou célebre por uma grande prova de rali que ligava, a cada ano, Paris à capital do Senegal entre 1979 e 2006. Mas algumas expedições são ainda mais exigentes ou ambiciosas, como é o caso da que levou, de 8 de dezembro de 2010 a 20 de fevereiro de 2011, um grupo de motociclistas a percorrer 18.000 quilômetros e a atravessar 11 países da África Oriental para ira da Cidade do Cabo (África do Sul) a Túnis.

Existem, também, na Europa alguns itinerários e destinos particularmente populares entre os motociclistas (Cf. mapa n° 1). La estrada do Cabo Norte (Cap Nord, em francês) é, entre eles, uma das mais míticas por seu caráter de estrada para o fim do mundo.

No Mar da Irlanda, a Ilha de Man é um destino onde qualquer motociclista europeu considerado digno deste nome deveria ir ao menos uma vez. Nela, a cada primeira semana de junho desde 1907, é organizada a Tourist Trophy (TT), a mais célebre das corridas motociclísticas em estrada. Mas é, também, um evento turístico de grande importância para a ilha.

Na França, a Estrada dos Grandes Alpes, que atravessa os Alpes franceses de ponta a ponta, e a Estrada dos Picos (Route des Crêtes, em francês) do maciço dos Vosges são pretextos para satisfazer a busca pelo prazer de pilotar e da descoberta de paisagens grandiosas. É também o caso, na Alemanha, da Estrada Alemã dos Alpes (Deustche Alpenstrasse); na Áustria, da Estrada Elevada Alpina do Grossglockner (Grossglockner Hochalpenstrasse) ou na Itália, do Col du Stelvio[19], por exemplo.

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Figura 2. Alguns lugares e estradas míticas de mototurismo na Europa e na América do Norte
Fonte: compilação de dados pessoais do autor.
Concepção: Jean SCOL. Realização: Jacqueline DOMONT – Laboratório TVES,  Junho de 2014.

Estas grandes e célebres estradas, assim como outras menos excepcionais, são também por vezes meios de participar de encontros que os motociclistas franceses chamam de concentrações. Trata-se de uma forma de turismo fortemente enraizada na tradição motociclista.

A concentração, uma prática turística motociclista

No sentido adotado neste texto, a concentração é uma reunião de indivíduos ligados por uma paixão comum. Ela implica, além disso, um deslocamento por uma distância mais ou menos longa e, para a maior parte dos participantes, a passagem de ao menos uma noite no local, na maioria das vezes por meio da prática do camping. Mesmo que os participantes de tais eventos nem sempre tenham consciência disto[20], estes dois últimos critérios (deslocamento e noite passada fora do local habitual de residência) fazem da concentração um verdadeiro fato turístico de acordo com o conceito adotado pela Organização Mundial de Turismo – OMT – por falta de melhor definição – mas também, de modo diferente, pelos profissionais e pesquisadores (Dewailly, 2006; Lozato-Giotard, 2006 ; Stock, 2007). A concentração não é um fenômeno exclusivo do mundo da motocicleta. No entanto, continua sendo uma forma de turismo praticada sobretudo pelos motociclistas. Geralmente organizada por um motoclube ou associação similar, é conceitualmente bastante simples (Portet, 1998). Trata-se de reunir durante um fim de semana ou por alguns dias os adeptos da motocicleta em uma área (pasto, espaço para a prática de esporte, estacionamento ou circuito de velocidade, por exemplo) transformado para a ocasião em camping temporário. Por uma tarifa normalmente modesta, o motociclista desacompanhado, em casal – por vezes em família – ou, como ocorre frequentemente, acompanhado de membros de seu clube é convidado a montar sua barraca, a utilizar-se de alguns metros cúbicos de madeira para acender uma fogueira, a compartilhar as refeições e a festejar por meio da participação em diferentes atividades de animação propostas pelos organizadores, se a ocasião se apresenta (passeios, concertos, jogos, procissão a luz de velas entre outros). Mas a principal atração da concentração continua, sem dúvida, ligada ao prazer de estar entre motociclistas e de compartilhar uma paixão comum: a motocicleta.  A concentração é profundamente marcada pelo espírito, pelos códigos e tradições do mundo da motocicleta forjados nos anos 1960, 1970 e 1980. Tais códigos estão fortemente embasados nos princípios da solidariedade e da camaradagem: “É necessário ter uma boa percepção do sentido da camaradagem existente entre os motociclistas para compreender adequadamente as motivações […] do mototurismo ” (Brougthon, 2007 in Walker, 2010: 153) no seio de uma comunidade que reivindica sua marginalidade (Oudin, 2009).

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Figura 3. Invernal de Millevaches 2012: a concentração é uma forma de turismo altamente ligada à prática do motociclismo
Fonte: Jean Scol, Cidade de Millevaches, Corrèze, França, 8 de dezembro de 2012.
Nos dias 8 e 9 de dezembro de 2012 mais de 3.500 motociclistas vindos de todas as regiões da França, mas também da Itália, da Bélgica, de Luxemburgo ou da Alemanha se reuniram para participar da célebre concentração invernal de Millevaches (planalto de Millevaches, Corrèze, 950m de altitude). Marcado por abundantes precipitações de neve, tanto sobre as estradas da França como sobre o planalto, esta edição foi particularmente apreciada pelos participantes. Trata-se, com efeito, no caso das concentrações invernais, de provar que o motociclista é capaz de enfrentar o mau tempo para satisfazer sua paixão.

O fenômeno é conhecido na América do Norte (Thompson, 2013), com as célebres e gingantescas aglomerações do Sturgis Motorcycle Rally em Dakota ou a Daytona Beach Bike Week na Flórida[21], por exemplo. No entanto, é a Europa que acolhe o maior número de concentrações que correspondem de forma mais precisa a nossa definição (Cf. mapa n° 1).  Assim, em 2013, aproximadamente 3.400 concentrações de motociclistas foram organizadas em 34 países, sendo mais de 1.100 na Alemanha, em torno de 350 no Reino Unido, 300 na Itália, mais de 250 na Espanha, 200 na França e 160 na República Tcheca (cf. figura 4).

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Figura 4. Distribuição por país das 3.396 concentrações "motociclistas" organizadas na Europa em 2013
Fonte: www.lpmcc.net, acesso em: 16/01/2014.
Concepção: Jean SCOL. Realização: Jacqueline DOMONT – Laboratório TVES, abril de 2014.

Entre elas, aproximadamente 10% ocorreram durante o inverno. Estas concentrações invernais são, neste caso, um fenômeno exclusivamente europeu. Inventadas pelos motociclistas alemães nos anos 1950[22], elas apresentam algumas especificidades que as distinguem de outros encontros. De fato, o sucesso de uma concentração de motociclistas em todos os outros períodos do ano parece, ao menos em parte, depender de condições meteorológicas favoráveis à prática do motociclismo e do camping (tempo seco, de preferência ensolarado, acompanhado de temperaturas positivas na maior parte do tempo, entre outras) (CERTU, 2010). O sucesso de uma concentração invernal repousa, para além da ausência de chuva, sobre condições totalmente opostas. Condições que a grande maioria de não iniciados nestas práticas e de motociclistas consideram perfeitamente incompatíveis com o motociclismo. No caso de uma invernal, o frio e a neve são, não apenas bem-vindos como, mais ainda, ardentemente desejados. Sua intensidade e abundância definem, inclusive o nível de sucesso do evento. Isso resulta, muitas vezes, em uma verdadeira competição entre as invernais. Ainda que as mais difíceis não sejam sempre as mais frequentadas, elas são com frequência as mais célebres e constituem, para os amantes da atividade, uma forma de consagração, um fim último. Participar de uma destas invernais “extremas” confere, com efeito, ao motociclista um status, uma aura que o distingue dos outros. Já era assim, aliás, para os participantes das primeiras invernais, e permanece em grande parte verdade ainda hoje, a ocorrência de um tipo de seleção natural dos motociclistas pela neve, pelo frio e pelo gelo. Apenas os mais motivados, os mais experientes, aqueles para os quais a motocicleta é um modo de vida alcançarão êxito deixando para trás os menos aguerridos: “os motociclistas de domingo”.

Para encontrar as condições que correspondem melhor às exigências de uma invernal bem-sucedida, algumas são organizadas até em latitudes próximas do Círculo Polar Ártico. É o caso das 20 invernais escandinavas e, em particular, daquelas que ocorrem na Noruega. Todas são organizadas pelo menos a norte do paralelo 60 e para além do paralelo 62 para o Savalen Rally[23] ou  o First Run  organizado à Roros (62° 34’ 27’’ N), na província de Trondlag, a menos de 450 quilômetros ao sul do Círculo Polar Ártico!

Para compensar uma latitude menos setentrional, outras concentrações invernais são organizadas em altitudes elevadas. É o caso da Tauerntreffen nos Alpes austríacos, a 1.700 metros, ou na França para a invernal des Marmottes, a mais de 2.000 metros, no município de Saint-Véran, no departamento dos Altos Alpes. Na Rússia, é a longitude da cidade de Gritsovo, onde se realiza a Samovar Treffen (38° 07’ 48” E), que lhe confere o clima continental que parece garantir as condições invernais de grande rigor. Na Alemanha, as duas concentrações históricas das Elefantentreffen são também organizadas em regiões que estão entre as mais frias do país. A Loh-Thurmannsbang-Solla, no maciço da Floresta Bávara, não muito distante da fronteira tcheca, em um caso; e perto do circuito de Nurburgring, no maciço de Eifel, na Renania-Palatinado, no caso das Altes-Elenfantentreffen (cf. figura 5).

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Figura 5. Vinte invernais representativas, organizadas de 2 de novembro de 2013 a 2 de março de 2014
Fonte: www.lpmcc.net, acesso em: 16/01/2014.
Concepção: Jean SCOL. Realização: Jacqueline DOMONT – Laboratório TVES, abril de 2014.

Se o inverno 2013 – 2014 foi relativamente clemente para uma extensa parte da Europa, algumas destas invernais, entretanto, registraram temperaturas extremamente baixas. Durante o XXIII Savalen Rally, organizado de 23 a 26 de janeiro em Tynset, na Noruega, no condado de Hedmark, registrou-se uma temperatura máxima de -6°, enquanto que a mínima chegou a -19°. Esta última foi, contudo, muito superior aos -35° observados em 2010! Grande sucesso teve também, na mesma data, a XI Tauerntreffen en Edelraute, nos Alpes de Styrie na Áustria, com temperaturas que variavam entre -5° e -10° e uma bela cobertura de neve garantida pela altitude (1.700m). O organizador desta invernal, contudo, sentia falta dos -25° da edição de 2005!

Esta forma muito marginal de turismo dos motociclistas interessa também aos profissionais. Com efeito, é comum que os amantes das concentrações (invernais ou não) antecipem ou prolonguem suas estadias nas estruturas de hospedagem turísticas das redondezas e aproveitem para descobrir a região. A secretaria de turismo de Meymac, em Corrèze, aos pés do planalto de Millevaches destaca a presença de numerosos motociclistas nos hotéis e restaurantes da área na véspera e até na antevéspera da invernal de Millevaches[24] e, com frequência, até na noite posterior ao evento. No caso das invernais de Marmottes em Saint-Véran ou de Tauerntreffen na Áustria uma parte dos participantes prefere também o conforto acolhedor dos hotéis locais e dos albergues às condições rudimentares e frigoríficas oferecidas pelo camping. No Kristall Rally todos os participantes ficam hospedados em hotel…

De um modo mais geral, a partir de agora um número crescente de territórios e profissionais do turismo começam a prestar atenção ao conjunto das atividades de mototurismo.

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Figure 6. Camaradagem e convivialidade são os motores do mototurismo
Fonte: Jean Scol, Cidade de Millevaches, Corrèze, França, 8 de dezembro de 2012.
As concentrações de moto (neste caso, a concentração invernal de Millevaches em dezembro de 2012) são uma forma de turismo cujo pretexto, além do prazer da estrada em si, é sobretudo partilhar um momento de convivialidade com outros amantes da motocicleta e da viagem.

Os atores do turismo e o mototurismo

Os atores do desenvolvimento turístico nos territórios e sobretudo os atores institucionais se mostraram até um passado recente, e se mostram por vezes ainda, bastante frios em relação ao mototurismo. De um lado, porque conhecem mal o mundo da motocicleta. Um objeto por eles frequentemente considerado muito perigoso, muito rápido, poluente, perturbador, mas também porque eles ainda associam a imagem do motociclista à jaqueta negra (Oudin, 2009), como aquela do Hell’s Angel, tido como delinquente e antissocial… “A armada estrondosa passou, fazendo tanto barulho quanto uma formação de bombardeiros […], o espetáculo parecendo ao mesmo tempo as hordas de Gengis Khan, dos piratas de Morgan e do saque de Nankin…” (Thompson, 2013: 189)

Esta visão arcaica da motocicleta e dos motociclistas é, ainda, a base de entraves – de rejeição, até – do mototurismo em alguns lugares e territórios. É o caso, por exemplo, no Maciço dos Vosges (França) onde, encorajadas por algumas associações ambientalistas, as autoridades administrativas regularmente planejam fechar ou limitar o acesso de motocicletas à famosa estrada des Crêtes. Esta rejeição não é, contudo, mais sistemática porque muitos dos atores do desenvolvimento turístico sabem doravante que o viajante motociclista é, em média, uma pessoa de idade madura (35-64 anos)[25] (CERTU, 2010; Delignières e Régnault, 2007), que desfruta de um status social e de rendimentos bastante confortáveis (CERTU, 2010;  Delignières e Régnault, 2007; Walker, 2010), e que, com frequência, é amante da boa mesa e de boas condições de hospedagem, tendo condições de gastar muito ao realizar suas viagens.

Sobra a estrada des Crêtes, os proprietários de albergues e de pequenos hotéis familiares são, aliás, os primeiros a defenderem a livre circulação desta clientela privilegiada que, nos belos dias, lhes garante uma parte muito importante de seus volumes de negócios (Scol, 2005).

Ao contrário do caso das Vosges, na Áustria as autoridades responsáveis pela gestão do Parque Nacional de Hohe Tauern integraram plenamente a presença dos turistas sobre duas rodas às estradas altas da região e compreenderam o interesse econômico que eles representam.  Longe de tentar desencorajá-los, o Parque Nacional e a sociedade pública que explora as estradas turísticas da região, e em particular a célebre Grossglockner Hochalpenstrasse, desenvolveram uma carta e  uma política específica de acolhimento (Motorradfreundlicher Grossglockner 2003) para este tipo de turismo e realizaram melhorias voltadas a este público, como a troca do revestimento da estrada  por uma cobertura de forte aderência, o aumento das faixas de segurança, a disponibilização de armários seguros e gratuitos para capacetes, e a criação de estacionamentos e de pontos de informação específicos para os motociclistas, por exemplo.

Observa-se mais geralmente que um número crescente de territórios na Europa (como ocorre na Escócia e em Luxemburgo, por exemplo) implanta políticas e iniciativas favoráveis aos turistas motociclistas.

Na França, esta tendência apareceu no fim dos anos 2000 no âmbito das políticas públicas de desenvolvimento turístico de certos territórios institucionais, notadamente no departamento de Doubs com o programa “Bem-vindos, Motociclistas!” (“Motards Bienvenue!”, em francês) (Lebugle, 2011); no Maciço Central, com o programa “Auvérnia, Terre de Motociclistas” (Auvergne Terre de Motards”, em francês) (Collin, 2011), ou na Région Provença-Alpes-Côte d’Azur com o programa “Sunny Ride Experience” (Le Magadure e Simon, 2011), por exemplo. Outras iniciativas se originam, por outro lado, do setor privado ou associativo do mundo do turismo: Federação Internacional de Pousadas (Fédération Internationale des Logis[26], em francês), federações departamentais e nacionais de Gîtes de France[27], por exemplo; ou da motocicleta: FFM, FIM, FFMC[28], Os Cavaleiros da Estrada (Les Chevaliers de la Route[29], em francês), mas também de motoclubes locais, da imprensa especializada, da indústria e do comércio motociclista, entre outros. As colaborações entre estes atores, advindas de diferentes horizontes, são com frequência estreitas, originando verdadeiras redes[30] e têm dado origem a projetos de territórios turísticos dedicados à motocicleta. Na Provença-Alpes-Côte d’Azur, por exemplo, esta rede de parcerias adquiriu a forma de um motoclube, o “Club Moto Paca“, criado em 2006 pelo CRT pelos CDT locais. Em 2011, o clube contava com aproximadamente 140 membros, entre os quais  estão a filial FFMC des Bouches du Rhône (FFMC13), a Mutual dos Motociclistas (Mutuelle des Motards, em francês), a operadora de mototurismo França sobre Rodas (France on Wheels, em inglês), a associação Bistrots de Pays, a rede Campings de Qualidade (Campings de Qualité, em francês), a rede de Logis de France da Provença, anfitriões independentes, a Associação da Grande Travessia dos Alpes (Association de La Grande Traversée des Alpes, em francês), dois locadores de motocicletas, bem como os editores de um guia multimídia de mototurismo em Provença-Alpes-Côte-d’Azur.

As iniciativas conduzidas em favor do mototurismo são essencialmente de dois tipos: a criação de itinerários turísticos para os motociclistas, e a promoção ou certificação de meios de hospedagem (hotéis, gîtes, chambres d’hôtes, campings etc.). Ainda que a descoberta do patrimônio (em sentido amplo) não seja negligenciada, os itinerários selecionados centram-se principalmente sobre o prazer da estrada e da pilotagem. Neste sentido, as regiões de montanha são privilegiadas. As diferentes certificações se apoiam sobre cartas e são atribuídas a estabelecimentos de hospedagem turística que oferecem serviços específicos para os turistas que viajam em motocicletas: um estacionamento ou garagem seguros, um espaço para secagem dos equipamentos, ferramentas e aparelhos para manutenção, bombas de óleo para as correntes de transmissão, informações sobre oficinas, sobre a meteorologia, sobre sítios e circuitos turísticos, entre outros.

Os exemplos de certificações de “meios de hospedagem mototurísticos” se multiplicam também através da Europa, em particular na Alemanha, na Áustria, na Suíça e na Itália, em cadeias como Alpen Mottorad Hotel,  Dolomiten Bike Hotel ou Biker Hotel, por exemplo.

Este mercado de turistas sobre duas rodas passou a ser interessante também às grandes marcas da hotelaria mundial que desenvolvem, também, programas específicos de acolhimento para seus clientes motociclistas: selos “Riders-Friendly” na rede Best Western EUA, “EasyRider – Feeling Pure” no hotel Marriott Frankfurt e, recentemente, também nos oito hotéis Best Western na Córsega, entre outros. Verifica-se, também, a existência na França e na Europa (Romênia, Bulgária etc.) de campings “motociclistas” que só recebem esta clientela.

Motociclistas militantes ou muito engajados no mundo da motocicleta são, em muitos casos, responsáveis pelo início destas iniciativas. Em Doubs, é um assessor CDT, motociclista e militante junto à FFMC que está na origem do programa “Bem-vindos Motociclistas!” (“Motards Bienvenue!“, em francês). Em Saône e no Loire, a rede de meios de hospedagem “gîtes et chambres d’hôtes Motociclistas” (“gîtes et chambres d’hôtes Motards”, em francês) é uma ideia trazida pelo presidente da câmera departamental de agricultura, que é também diretor da Federação de Gîtes de France do departamento local e motociclista militante vinculado à FFMC. Esta federação é, aliás, altamente solicitada pelos territórios afetados pelo fenômeno motociclístico a fim de finalizar ou validar as diferentes certificações ou circuitos turísticos dedicados a este público.

De seu lado, as operadoras especializadas em mototurismo são cada vez mais numerosas. Encontramos algo em torno de 600 operadoras espalhadas por 72 países em 2012, e mais de 700 em 77 países em 2015. A grande maioria delas está estabelecida na Europa e nos Estados Unidos da América, mas elas podem ser encontradas nos cinco continentes e, por vezes, em países também marginais do ponto de vista turístico, como o Butão, a Etiópia ou em Honduras, por exemplo. Ainda que as grandes operadoras generalistas não estejam totalmente fora deste mercado (é o caso, por exemplo, da Thomas Cook Bélgica), a maior parte destas empresas são de estrutura artesanal ou familiar. Na origem e no comando das operadoras mototurísticas encontra-se, na maior parte dos casos, um motociclista viajante que fez de sua paixão uma atividade profissional (West Forever, Itinéraires évasion, por exemplo). É muito comum, ainda, que uma operadora localizada em um país em desenvolvimento (Marrocos, Índia, Mali, Madagascar, Vietnã, entre outros) tenha sido criada por um ocidental expatriado, que frequentemente divide a direção do negócio com um cidadão local (como na Vintage Ride na Índia, por exemplo).

Muitas destas operadoras reivindicam a criação e a venda de produtos de “aventura” (Concas, 2012;  Bourdeau, 1994). Mas parece incongruente comparar uma travessia confortável dos EUA pela Rota 66, ao guidão de uma luxuosa e cara Harley-Davidson, como propõe (entre outras) a operadora francesa West Forever, com um raid no Himalaya organizada pela agência franco-indiana Vintage Ride, por pistas cheias de curvas e pedras sobre modestas Royal Enfield que não custam mais que algumas centenas de euros. E o que dizer das expedições vendidas sob medida pela operadora britânica Globusters que levam seus clientes durante várias semanas ou meses – até quase um ano – do Alasca à Terra do Fogo ou para uma volta ao mundo de mais de 40.000 quilômetros? Nada em comum, tampouco, entre as expedições africanas transaarianas e as viagens altamente seguras de descoberta à Italia, à Grécia, ao Cabo Norte ou ao arco alpino – destinos, aliás, muito populares entre os viajantes motociclistas europeus.

A análise dos catálogos impressos ou eletrônicos das 578 operadoras identificadas em 2012 mostra que elas ofereciam um total de 120 destinos turísticos. Eles correspondiam a um total de 1511 propostas de viagens. A distribuição geográfica de tais propostas possibilita uma cartografia do mercado organizado de mototurismo (cf. figuras 7, 8, 9).

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Figura 7. Frequência dos 120 destinos identificados nos programas de 578 operadoras de mototurismo em 2012
Fontes: Compilação de dados de operadoras de turismo a partir do sítio www.gorando.com, consultado em maio de 2012.
Concepção: Jean SCOL. Realização: Jacqueline DOMONT – Laboratório TVES, abril de 2014.
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Figura 8. Frequência dos continentes entre os destinos propostos pelos 578 organizadores de viagens de mototurismo em 2012
Fontes: Catálogos impressos ou eletrônicos dos 578 organizadores de viagens de mototurismo da amostra. Exemplo: 39 países da Europa são vendidos pelas operadoras.

Estes países são citados 626 vezes nos catálogos das operadoras turísticas, o que representa 42% do total das 1511 propostas de viagens que constam dos programas das 578 operadoras.

Em conformidade com suas performances globais estabelecidas pela OMT em termos de visitação turística internacional, a Europa, a Ásia e as Américas são, nesta ordem, os três continentes mais vendidos pelas operadoras mototurísticas. Contudo, a África, que recebe apenas 5% a 6% do fluxo turístico internacional (mas cujo percentual de citações em catálogos excede 16,5%) aparece como um mercado muito atraente para o mototurismo. É uma situação que deve muito às promessas de aventuras evocadas por este continente (Concas, 2011).

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Figura 9. Os 40 primeiros destinos propostos pelos 578 organizadores de viagens sobre motocicletas em 2012
Fontes: catálogos impressos ou da Internet dos 578 organizadores de viagens de mototurismo da amostra e OMT 2013. 
(1): Exemplo: a França (primeiro destino turístico mundial) é citada ao menos uma vez nos programas de 2012 ou 2013 de 143 organizadores de viagens de mototurismo; o Marrocos (27º. destino mundial) é citado ao menos uma vez entre os 63 organizadores.

Uma abordagem desta distribuição por país mostra que entre os 20 primeiros destinos propostos, oito são europeus e seis são americanos, enquanto que a África, a Ásia e a Oceania contam apenas com dois cada. A classificação desses 20 destinos em função de sua aparição nos programas das operadoras turísticas especializadas, contudo, altera fortemente a classificação dos países receptores. De fato, se a França e os EUA têm um lugar estritamente de acordo com suas posições de primeiro e segundo destinos mundiais, o Marrocos, a África do Sul, a Índia, a Austrália, a Argentina, o Chile, a Nova Zelândia, o Peru e Portugal, ao contrário, ocupam lugares de destaque, enquanto nenhum destes países passa do 27º lugar (Marrocos) no ranking de países, e até do 65º lugar para a Nova Zelândia!

Os países da Europa mais frequentemente oferecidos são, na maior parte dos casos marcados por sua situação mediterrânea, cujo clima é propício à prática do motociclismo ou porque são países alpinos que oferecem estradas aptas a satisfazer o desejo de pilotar (curvas, desníveis etc.) (cf. figura 10).

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Figura 10. Alguns circuitos "motociclísticos" propostos pelas operadoras turísticas Edelweiss Travel e Twintour na Europa em 2012
Fonte: www.lpmcc.net, acesso em: 16/01/2014. Concepção: Jean SCOL. Realização: Jacqueline DOMONT – Laboratório TVES, abril de 2014.

Os EUA remetem aos grandes espaços, às estradas lendárias e ao sonho americano para os “bikers” amantes de motocicletas custom e, mais particularmente, das Harley-Davidson. O Marrocos é uma terra de aventura africana às portas da Europa. É um destino que apresenta riscos limitados para os motociclistas que sonham com o deserto e em andar em trilhas. A África do Sul oferece condições de condução similares às conhecidas pelos motociclistas anglo-saxões principalmente. A isto deve-se acrescentar a possibilidade de observação dos “big five[31] do continente africano (West Forever). A Austrália e a Nova Zelândia são consideradas como espaços selvagens a conquistar (Concas, 2011). Exatamente como a Argentina, o Chile e o Peru, países que não podem ficar de fora de um tour pela América do Sul e cuja reputação foi, aliás, reforçada desde 2006 pelo rali “Dakar“. Finalmente, a Índia é o quinto destino mais frequentemente oferecido, sobretudo por agências indo-europeias. Trata-se, na maior parte das vezes, da venda de circuitos realizados em motocicletas Royal Enfield, uma marca local herdeira da ocupação britânica, de produção vintage, fiel ao espírito e às tecnologias dos anos 1950. A maior parte dos circuitos conduzem à descoberta do Rajsatão e, sobretudo, das províncias himalaias do norte do país. Alguns, inclusive, vão até mesmo à China, ao Nepal e ao Butão.

Conclusão

O mototurismo se compõe de um conjunto de práticas marginais. Ele representa uma parte muito pequena do fenômeno e se inscreve duplamente no âmbito dos interstícios do campo turístico. Este turismo repousa sobre práticas e códigos que lhe são próprios. Ele é sobretudo itinerante e tem a estrada como um componente essencial, frequentemente bem mais importante que o destino final. Ele é marcado pela existência de itinerários e de destinos míticos e origina uma geografia específica. As noções de esporte, de façanha, de desafio ou de aventura impregnam o mototurismo. Mas ele é também muito marcado por fortes valores humanos, como a amizade, a solidariedade, o sentimento de fazer parte de uma confraria, de uma família…

Por muito tempo auto organizado, individualmente ou no seio de grupos de praticantes mais ou menos estruturados (federações, clubes etc.), o mototurismo, como outras formas marginais de turismo (ecoturismo, turismo de aventura, entre outros), suscita hoje em dia o interesse crescente de territórios e profissionais que durante muito tempo, no entanto, o ignoraram. Estes o veem como uma oportunidade de dele se apropriarem e de desenvolverem um novo nicho de mercado de elevado valor agregado. Esta vontade se insere em uma tripla tendência atual do mercado turístico:

  • A segmentação do mercado que visa à diversificação e à especialização de uma oferta que se aproxima ao máximo das categorias de clientelas e de suas aspirações;
  • No âmbito de uma concorrência exacerbada, a vontade dos profissionais e dos territórios de se afastar das formas tradicionais do turismo e de exibir sua capacidade de se adaptar e de oferecer produtos inovadores;
  • A vontade de uma clientela que quer viver a aventura ou, ao menos, um turismo “original”, mas que quer também se livrar dos aborrecimentos da organização logística de sua viagem e que dispõem de meios para contratar os serviços de profissionais.

Assim, os produtos turísticos específicos se multiplicam sob a forma de viagens organizadas, de itinerários e de meios de hospedagem a eles dedicados. Serviços que se inserem comumente nas lógicas do turismo de aventura ou esportivo e quase sempre naquelas do turismo de luxo.

No entanto, a população de motociclistas envelhece e nada pode garantir a perenidade deste tipo de turismo. Com efeito, seus códigos são amplamente marcados pelas tradições motociclistas forjadas nos anos 1960, 1970, 1980 e até 1990. Talvez eles não respondam mais plenamente às aspirações das novas gerações de motociclistas para as quais a motocicleta parece ter se tornado mais um hobby efêmero que um verdadeiro modo de vida.

Bibliografia

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Outras fontes

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L’intégral, magazine mensuel, Editions Larivière, Clichy, France.

Moto Journal, magazine hebdomadaire, éditions Motor Presse France, Issy-les-Moulineaux, France.

Moto Revue, magazine bimensuel, Editions Larivière, Clichy, France.

L’Officiel du cycle, de la moto et du quad : la revue de la profession, magazine mensuel, éditions Motor Presse France, Issy-les-Moulineaux, France.

 

Publicações impressas e sítios web: CRDT d’Auvergne, CRT de Provence-Alpes-Côte-d’Azur, CDT du Doubs, CDT du Jura, de l’OT de Nevez, des Gîtes de France (Fédération Nationale et antennes départementales), de l’Association des Hôtels ‘Logis de France’ et de la Fédération Françaises des Motards en Colère (FFMC). Sítios web de sociedades ou associações: Bikerhotel, Motor Bike Hotel International, Mobike Hotel, Moho Motorrorrad Hotel, Alpen Motorrad Hotel GMBH e sua filial Dolomiten Bike Hotel GMBH.

 

Notes

[1]  Os estatutos federais da Federação Francesa de Motociclismo – FFM (Fédération Française de Motocyclisme, em francês) definem pelos termos “motocycle” ou “moto” (em francês) as motocicletas, scooters, ciclomotores e, de um modo geral, todos os equipamentos terrestres sobre duas, três ou quatro rodas equipados de um guidão, propulsionados por um motor e em conformidade com o Código da Estrada (Code de la Route, em francês).
[2] O estudo do CERTU (CERTU, 2010) revela que a circulação sobre duas rodas motorizadas (2RM) representam menos de 2% dos deslocamentos na França.
[3] O número de usuários de motocicletas na França é desconhecido. Os únicos números disponíveis dizem respeito à frota de 2RM. Eles variam muito (de 1,4 a 5,7 milhões), em função dos métodos e organismos de contagem e não podem ser vistos como estritamente equivalentes ao número de usuários.
[4] Filme americano de Laszlo Benedek (1953), com Marlon Brando. A história é inspirada em confrontos entre grupos de motociclistas da cidade de Hollister (USA) em 1947.
[5] Filme francês de Gérard Pires (1975), com Jean-Louis Trintignant e Catherine Deneuve: a vingança de um homem cuja mulher e filha são assassinadas por três motociclistas durante uma viagem de férias.
[6]Sons of Anarchy“: série americana para a televisão de Kurt Sutter; exibida na França pelo canal M6 a partir de outubro de 2006. A série retrata um clube de motociclistas fora da lei que tomam o controle de uma pequena cidade dos Estados Unidos da América e vivem de diferentes expedientes.
[7] Existem, entretanto, alguns contraexemplos de produções cinematográficas (Gosh Rider, por exemplo) ou de quadrinhos (Joe Bar Team, Little Kevin, entre outros) que tendem a transmitir a imagem de motociclistas simpáticos.
[8] O Campeonato Anual de Turismo da França (Championnat de France Annuel de Tourisme, em francês), organizado pela FFM, consiste na ida ao máximo possível de eventos motociclísticos selecionados na França ou na Europa pela federação e na validação do carnê de estrada (carnet de route, em francês). O número de pontos é atribuído (individualmente e/ou ao clube) em função da quilometragem percorrida.
[9] Nota do autor.
[10] Ver V.
[11] Artigo publicado na revista dos Gîtes de France n° 86 – Inverno 2009, “A Droma (la Drôme, em francês) está cheia de motociclistas” a propósito da colocação de um selo de “Boas-vindas aos motociclistas” nos gîtes do departamento.
[12] Forma de relevo que corresponde à passagem de uma vertente para o outra via um ponto mais baixo da montanha (nota do tradutor).
[13] Biker(s) é um termo anglo-saxão que designa o motociclista. O biker pilota, normalmente, uma máquina do tipo custom ou chopper (ver nota 18).
[14] Peter Fonda: ator, diretor, roteirista e produtos de filmes americanos nascido em 1940.
[15] Dennis Hopper: ator, diretor, poeta, pintor e fotógrafo americano nascido em 1936, falecido em 2010.
[16] Easy Rider: filme americano (EUA) produzido e realizado em 1969 por Denis Hopper e Peter Fonda. O filme relata a viagem de dois motociclistas hippies pelo sul dos Estados Unidos da América. Easy Rider é até hoje considerado um filme cult tanto pelos herdeiros da cultura hippie como pelos motociclistas.
[17] Ao contrário da Rota 66, a Rota Dixie não é um itinerário histórico. Seu traçado é o percorrido pelos heróis do filme Easy Rider. Ele foi especialmente reconstituído pela operadora francesa de mototurismo Forever, que possui sua propriedade intelectual depositada junto ao Instituto Nacional da Propriedade Intelectual – INPI (Institut Nationale de la Propriété Intellectuelle, em francês).
[18] Uma motocicleta chopper é uma motocicleta profundamente modificada por seu proprietário ou por uma oficina especializada. Ela é, geralmente, rebaixada, equipada com um grafo (muito) grande, um guidão exageradamente alto, um assento muito próximo do solo e decorado com cores vivas e acessórios cromados reluzentes.
[19] O Col du Stelvio está situado sobre a fronteira ítalo-suíça. Tendo seu ponto de cruzamento a uma altitude de 2.758m, ele é a segunda mais alta passagem de montanha rodoviária da Europa. É percorrido, a cada ano, por dezenas de milhares de motociclistas de várias nacionalidades.
[20] Muitos motociclistas questionados durante as concentrações não consideravam que estivessem fazendo turismo porque não aproveitavam a estadia para descobrir a região.
[21] O Sturgis Motorcycle Rally e a Daytona Beach Bike Week recebem, cada um, mais de 500.000 visitantes e se assemelham a verdadeiros festivais da motocicleta.
[22]Ernst Leverkus, então redator do jornal Das Motorrad, lançou em janeiro de 1956 a ideia da primeira concentração invernal de motociclistas. Esta reunião foi batizada de Elefantentreffen (o encontro dos Elefantes) e se tornou rapidamente a inspiração e o modelo a ser seguido para a maior parte das manifestações do gênero. Ademais, o sufixo ” treffen ” utilizado por várias outras concentrações invernais mesmo fora da Alemanha (como Tauerntreffen, na Áustria; Samovar Treffen, na Rússia; e  Canards-Gast-Treffen, na França, por exemplo)  marca esta identificação.
[23] O termo inglês “rally” é também comumente utilizado (mesmo fora do Reino Unido) para designar uma concentração de motocicletas (Fjord Rally, Dragon Rally, Savalen Rally, por exemplo).
[24] As Millevaches são a invernal mais importante organizada na França. Ela ocorre todo primeiro fim de semana de dezembro na Creuse, sobre o planalto e a cidade de Millevaches, a pouco mais de 900m de altitude. As Millevaches reuniram mais de 3.500 participantes em 2012 e 2013.
[25] O estudo do CRTU (CERTU, 2010) mostra que as pessoas com idade entre 35 e 64 anos representaram na França 48% dos usuários de motocicletas no período 1995-2000. No período 2006-2009, esta mesma faixa etária representou 66% dos usuários. Entre estes dois períodos, a faixa entre 18 e 34 anos despencou e passou a apenas 25%. Esta evolução mostra, portanto, um acentuado envelhecimento da idade média dos motociclistas na França.
[26] Até 2007 denominada Federação Nacional de Pousadas da França (Fédération Nationale des Logis de France, em francês).
[27] A Federação conta com 500 estabelecimentos certificados como “motociclistas” na França e na Europa. Os Gîtes de France afirmam que, no caso deles, são 1900 gîtes ou chambres d’hôtes com “atmosfera motociclista“.
[28] FFMC: Federação Francesa de Motociclistas Irados (Fédération Française des Motards en Colère, em francês).
[29] Os Cavaleiros da Estrada (Les Chevaliers de la Route, em francês) são uma associação criada pela revista “O Mundo da Motocicleta” (“Le Monde de la Moto”, em francês) nos anos 1970 e que, entre outras atividades, atribui a classificação “relais Motard ” a estabelecimentos de hospedagem e de alimentação.
[31] Em seu romance As Neves do Kilimanjaro, publicado em 1936, Ernest Hemingway designa pela expressão  “cinco grandes” os cinco grandes mamíferos africanos hoje apresentados em destaque pelos organizadores de viagens no âmbito dos safáris fotográficos ou de caça: o leão, o leopardo, o elefante da África, o rinoceronte negro e o búfalo da África.

 

 

Autor

Jean Scol, Professor (Maître de Conférences) de Geografia, Universidade de Lille, Ciências e Tecnologias, Unidade de Formação e Pesquisa de Geografia e Gestão, Laboratório Territórios, Cidades, Espaços e Sociedades (Univ Lille 1, TVES EA 4477)

 

 

Tradução Francese > Português
Hervé Théry