A alteridade no turismo – a arte da sedução

Magdalena Banaszkiewicz

Há amantes de livros que o estão aguardando com impaciência. Há coleção de livros que – os leitores sabem – é inovadora, inspiradora e sempre no nível definido de qualidade. A conexão entre esses dois aspectos garante, geralmente, uma boa leitura. Este é o caso de “O Turismo e o Poder da Alteridade: Seduções da Diferença” editado por David Picard et Michael A. Di Giovine. Dois estudiosos promissores decidiram publicar uma coleção de artigos em uma bem conhecida e respeitada série “Turismo e Mudança Cultural” na Channel View Publications. É claro que isto não gera um sucesso imediato mas nos obriga a focar nele nossa atenção. Principalmente que os editores escolheram um título realmente atraente. Turismo + Alteridade = Sedução… do leitor.

A análise das relações entre Mim-Outro é muito mais velha do que os estudos de turismo, portanto, o volume está profundamente alicerçado em fortes tradições intelectuais (o que é confirmado pela excelente introdução redigida pelos editores). O embasamento filosófico, religioso e histórico ao qual se referem os autores da introdução mostra o quanto universal é o conceito de Mim-Outro. No entanto, a discussão não se limita apenas a termos abstratos somente. O que é inovador na perspectiva adotada é o fato de que eu e a Alteridade pode ainda tornar-se uma ferramenta prática para uma melhor compreensão dos problemas muito específicos da modernidade, especialmente no contexto do turismo. A partir do momento em que Mim-Outro se revela sempre em uma conexão, “as zonas de contato” do turismo adquirem um enorme potencial para investigar fenômenos diferentes.

O volume é representado por artigos bastante diversificados, divididos em três partes. O primeiro, “Viajens dentro da Velha Idade do Ouro“, exemplifica as possibilidades de utilizar o passado, que serve como um molde para criar imagem e identidade (Camila de Marmol, capítulo 2; Paula Mota Santos, Capítulo 3) ou que revela sua complexidade na interpretação dos diferentes fazedores de opinião (Verschaeve e Wadle, Capítulo 4). Esses estudos de caso confirmam, de modo significativo, a idéia de Sharon Macdonald (2013) que a Europa, graças a um largo espectro de formas de consciência histórica, pode ser percebida como “Terras de Memoria”.

A segunda parte, intitulada “Turismo e Outros em Diálogo”, apresenta tensões culturais e sociais em diferentes áreas do turismo. Essas são, geralmente, o resultado de um choque entre imaginários dos turistas, objetivos da indústria do turismo e atividades das comunidades locais. Com base em estudos de caso representando três continentes: Ásia (Gupta, Capítulo 5), África (Salazar, Capítulo 6) e América do Sul (Sammells, Capítulo 7), o leitor toma consciência de que, paradoxalmente, fatores muito semelhantes estão moldando a situação em lugares distantes do mundo.

A última parte, “A Viagem, o Outro e a Auto-Revelação”, concentra-se, principalmente, nos turistas e suas aspirações. Através do contato com a natureza (Knapp, Wiegand, Capítulo 9), com os habitantes do lugar (Scheltena, Capítulo 8) ou por buscas espirituais (Ghasarian, Capítulo 10), os turistas procuram redefinir sua percepção de Si Mesmos, que podem associar com o conceito de Homo Viator de Gabriel Marcel. Neste caso, a viagem física sustenta as jornadas metafísicas através das quais um ser humano transcende intelectual e espiritualmente.

A qualidade dos artigos apresentados varia, alguns deles são mais gerais, alguns deles são mais amparados por base teórica, outros se concentram mais nas reflexões autobiográficas. Esta diversidade constitui a força do volume. Todos os trabalhos, graças à linguagem acessível e à vivacidade dos exemplos, proporcionam uma leitura agradável, o que provoca uma visão fresca sobre velhas questões. A introdução evidenciando a erudição de seus autores desempenha um papel particularmente importante.

A ampla perspectiva desta parte do livro será especialmente útil a esses estudiosos que procuram o breve, mas teoricamente bem fundamentado, resumo do estado da arte. No entanto, parece que o volume, devido ao seu caráter popular e científico, se dirige a um grande leque de leitores: não só os acadêmicos e estudantes, mas também às pessoas que desejam aprofundar sua percepção sobre os processos que constituem o mundo moderno. A imagem desconcertante (por Sara Maia) da primeira capa convida simbolicamente a encarar este desafio.

Esses estudos de caso etnográficos demonstram que a alteridade pode assumir diferentes figuras. Não importa quem você é (o anfitrião, o hóspede ou o representante da indústria do turismo) e onde você está (na Europa, na África ou em qualquer outro lugar), todos nós dançamos a intrincada dança da sedução. A arte da sedução supõe uma incessante troca nos papéis de poder e sujeição; além disso, ela está conectada com o aperfeiçoamento da atratividade de uns e está usando o contexto para ocupar uma melhor posição. Através desta dança, sob a qual reside a fascinante relação entre Mim e Outro, ordens culturais e sociais se encontram em um movimento sem fim.

Livro

David Picard and Michael A. Di Giovine (eds.) Tourism and the Power of Otherness: Seductions of Difference, Bristol: Channel View, 2014, 195 p.

Autor

Magdalena Banaszkiewicz
Professora no Instituto de Estudos Interculturais na Universidade Jagiellonian, Polônia


Traduction Anglais > Français :

Allaoua Saadi