Paraty, vantagens locacionais e valorização do património histórico

Hervé Théry*

A cidade de Paraty, no Estado do Rio de Janeiro, é um dos locais turísticos mais populares no Brasil, hoje ela é um dos vinte principais destinos no país e um dos cinco primeiros para os visitantes franceses e ingleses. O turismo só se desenvolveu na cidade nos últimos cinquenta anos, o principal fator de seu crescimento sendo a sua excepcional localização e as novas estradas que levaram à redescoberta e valorização do seu património histórico, preservado por um longo período de isolamento.

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Figura 1. localização de Paraty
Fonte: VistaDivina http://www.vistadivina.com/downloads/rssp3.php e GoogleMaps
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Figura 2. Vias de acesso a Paraty
Fonte: http://www.paraty.com.br/roteiros.asp

Paraty está localizada entre as duas maiores áreas metropolitanas urbanas do Brasil, a 248 km do Rio de Janeiro e 330 km de São Paulo, o que é obviamente um grande trunfo desde que a primeira tem mais de 12 milhões e a segunda mais de 20 milhões de pessoas, entre as quais a maior concentração de famílias com elevado nível de renda do país. A pequena cidade – ela tem uma área de 925 km2 e uma população estimada de 37 533 habitantes (IBGE 2010) -pode, portanto, contar com um enorme potencial de clientes, com acesso fácil pela estrada costeira ou pelo vale do Paraíba, onde passam as rodovias ligando as duas cidades e de onde vários eixos perpendiculares permitem cruzar a Serra do Mar até o litoral. (Figura 2).

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Figura 3. A cidade e o seu contexto
Source : http://www.vistadivina.com/downloads/paraty3.php

A data de fundação da cidade não é conhecida com certeza. Para alguns autores, já existia em 1540/1560 uma cidade dedicada a San Roque, outros fixam a sua origem em 1597, quando Martim Correa de Sá lançou uma expedição contra os índios Guaianás no vale do Paraíba. Outros ainda preferem a data de 1606, com a chegada dos primeiros colonos da Capitania de Itanhahém. Em qualquer caso em 1660 a situação era bastante florescente para seus habitantes exigirem sua separação de Angra dos Reis e sua elevação à categoria de Vila, obtida em 1667 sob o nome de “Villa de Nossa Senhora dos remédios de Paratii”.

Paraty tinha então um próspero comercio, por causa da sua posição estratégica no fundo da Baía de Ilha Grande. Era onde começava o caminho que, via Guaratinguetá, Freguesia da Piedade (a atual Lorena) e as gargantas do Embu, levava às Minas Gerais, onde jazidas de ouro tinham sido descobertas no final do século XVII: graças ao “caminho do ouro de Piedade” seu porto tornou-se o segundo do país.

Em 1702, o governador do Rio de Janeiro promulgou o “Regulamento das Minas” que mandava que apenas gado fosse trazido da Bahia, e que todos os outros produtos passassem pelo Rio de Janeiro (então uma pequena cidade) e então a partir daí “tomassem a direção de Paraty”. Em 1703, a Carta Real do dia 9 de maio mandou instalar em Paraty uma Casa de Quintar (literalmente uma casa onde fosse recolhido o quinto ouro para a Coroa) a fim de controlar o fluxo do ouro das minas para o Rio de Janeiro e o fluxo de homens e mercadorias no sentido oposto.

Infelizmente para Paraty, de 1710-1711 foi iniciado a abertura de um caminho direto do Rio de Janeiro para as Minas via a Serra dos Órgãos, reduzindo o tempo de viagem pela metade. Em 1767 a construção do “caminho novo” tinha sido terminada, o de Paraty tornando-se o “caminho velho”. Com a queda do trânsito do ouro, Paraty voltou-se para a produção de cachaça, usada como moeda de troca contra escravos africanos. O velho caminho do ouro foi cada vez mais usado para encaminhá-los para as plantações de café do vale do Paraíba e exportar sacos de café no lombo de mulas. Por ali também passavam artigos de luxo importados da Europa pelos “barões do café” enobrecidos pelo imperador porque forneciam ao país sua principal riqueza e ao governo imperial – através do imposto de exportação – seu principal recurso fiscal.

Em 1850 Dom Pedro II promulgou, sob pressão dos abolicionistas brasileiros e da Grã-Bretanha, uma lei que proibia o tráfico de escravos, mas este continuou sob a forma de contrabando, passando por Paraty, porque nas proximidades da cidade os negociantes de escravos achavam muitas enseadas menos controladas do que o porto do Rio de Janeiro e ilhas onde podiam deixar descansar os escravos esgotados pela travessia do Atlântico. O porto foi crescendo também graças ao café e outros produtos transitando via Guaratinguetá, mas em 1864 a estrada de ferro chegou ao vale do Paraíba em Barra do Piraí e todo o vale começou a usá-lo para vender sua produção, causando a decadência final de Paraty e do antigo caminho do ouro. O golpe de misericórdia foi a abolição da escravatura em 1888, que provocou tamanho êxodo que a cidade, que tinha 16.000 habitantes em 1851, apenas manteve-se no final do século XIX, de acordo com um viajante do tempo, com “600 idosos, mulheres e crianças”.

Paraty permaneceu praticamente isolada por décadas, um isolamento que preservou a cidade no estado onde ela se encontrava no seu tempo de esplendor, no final do ciclo do café do século XIX. A maioria das casas da época do ciclo do ouro tinha então sido embelezadas, usando dinheiro oriundo em grande parte do contrabando de escravos e de cachaça. As figuras 4 e 5 mostram que, em meados do século XX, a cidade tinha mais ou menos a mesma aparência que no final do Império.

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Figura 4. Foto aérea de Paraty em 1945
Fonte : Cotrim 2012
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 Figura 5. Planta de Paraty em 1863
Fonte : Cotrim 2012

A cidade e seu patrimônio foram redescobertos em 1954, com a reabertura da estrada Paraty-Cunha, vinculando-o para o Estado de São Paulo. Em 1929 um primeiro carro já tinha passado por ela para chegar a Paraty, mas não tinha conseguido subir a serra do Mar e permaneceu na cidade… O movimento intensificou-se, então, com a construção da rodovia Rio-Santos (BR-101), em 1973, vinculando-a pelo litoral com as duas metrópoles.

“Descoberta” por intelectuais e artistas, que encontraram belas casas a preços muito baixos, a cidade passou gradualmente a ser um destino popular graças ao seu patrimônio, mas acima de tudo por suas paisagens, suas 65 ilhas, 11 cachoeiras e quase 120 praias, que lhe permitiram combinar turismo cultural, ecológica e balneário.

Paraty foi declarado Património do estado em 1945, incluído no inventário do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1958 e classificado “monumento nacional” em 1966. Tem oficialmente 88 atrações culturais, incluindo 20 edifícios, 23 instituições culturais e mais de 30 eventos no seu calendário. Entre estes, as festas do Divino Espírito Santo, de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e de Nossa Senhora dos Remédios, sua padroeira. Mais original, o Festival da Pinga e o Festival literário internacional de Paraty (FLIP) que atrai cada ano escritores do mundo inteiro, incluindo os mais mediáticos.

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Figura 6. Paisagens
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Figura 7. Ruas do centro histórico

Além do cenário natural oferecido à cidade pelas encostas da serra do Mar cobertas com florestas, a atratividade da cidade vem do seu conjunto único de casas e edifícios construídos, no tempo de ciclo ouro sob a liderança de engenheiros militares. Seu alinhamento impecável é garantido em cada esquina por três pedras angulares (o quarto ângulo sendo caiado como o resto das paredes). Alguns autores querem ver nisso um triângulo maçônico (a maçonaria era de fato muito presente no corpo de engenheiros), mas é mais provável que em seu racionalismo eles tenham considerado que três pontos fossem suficientes para definir um triângulo retângulo, garantia de um perfeito alinhamento das fachadas.

Outro encanto da cidade encontra-se nas suas ruas pavimentadas com pedras brutas, uma pavimentação em opus incertum agradável aos olhos é desagradável aos tornozelos de visitantes, especialmente se usarem saltos altos. Pelo menos eles/elas têm a satisfação de andar em ruas são limpas, as ruas sendo lavadas duas vezes por dia pela maré, através de um sistema de comportas abertas no cais do porto.

 

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Figura 8. Tourismos

O site www.destinoparaty.com.br contava recentemente (ele atualmente está fora de serviço, esperando o apoio do escritório de turismo de Paraty) 276 lugares para alojamento turístico, 195 estabelecimentos de restauração, quatro agências de aluguel de moradias de férias, 32 guias turísticos e cinco empresas de aluguel de meios de transportes. Estas oferecem excursões que variam de confortáveis a mais esportivas, permitindo procurar praias ou escalar de 4×4 as velhas trilhas pelas quais escravos subiam a serra do Mar os comboios de ouro desciam até o porto. Existem também centenas de barcos disponíveis para navegar na baía e para as ilhas ou praias inacessíveis por terra, desde as escunas (cujo nome e forma são derivados dos schooners holandês) até barcos mais simples, como aquela da figura 8 (o seu proprietário considera que subiu na vida ao adquirir este modesto barco e reinventa a fórmula de Jules César (“veni, vidi, vici” e por isso o chamou “eu venci”.

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Figura 9. Gastronomia

Os restaurantes de Paraty também diversificaram a sua oferta e alguns começaram a incluir em seus menus pratos muito diferentes do arroz-feijão-bife brasileiro: aïoli, Croque monsieur e Croque-Madame, salada Niçoise, terrine de fígado de aves, risoto de funghi secchi à Provençal(sic), vemos na figura 9 que a cidade recebe muitos visitantes franceses… Outros fazem grandes esforços de originalidade, como aquele que reconstrói a paisagem da cidade numa sobremesa (mesma figura): as montanhas, o mar, a praia e escunas são representadas respectivamente em sorvete de cassis, migalhas, biscoitos e raspas de laranja e limão.

Cachaça, antigamente usada como moeda para adquirir escravos, é agora um recurso turístico, vendida em muitas lojas na cidade e os seus destiladores se organizaram para que a especificidade do seu produto seja reconhecida. A cachaça de Paraty ganhou do INPI em 2007 uma indicação de origem, ou seja, o direito exclusivo para os destiladores locais de mencionar o nome em suas etiquetas, enquanto anteriormente várias marcas, em muitos Estados, o usavam para sua cachaça. Deve-se notar que Brasil apenas seis produtos obtiveram a indicação de origem, e Paraty é a primeira cachaça a receber esta certificação, antes mesmo da região de Salinas, em Minas Gerais, de onde vêm aguardentes mais famosas – e mais caras – do país.

Este esforço de diversificação do turismo em Paraty é também evidente na aparência das lojas e serviços para turistas, que oferecem produtos cada vez mais sofisticados (Figura 10). Passa-se gradualmente de “lojas para turistas”, que empilham bugigangas fabricadas na China para galerias de arte, expondo alguns objetos bem-escolhidos, de lojas vendendo camisetas baratas a boutiques de moda. Abriu-se até uma livraria bem fornecida em livros de arte ou sobre a história regional. Os letreiros da figura 11 mostram que criou-se um mercado, para comidas e equipamentos domésticos mais refinados.

2015-1-ART6-fig10Figura 10. Das “lojas para turistas” para comércios mais ambiciosos
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Figura 11. Letreiros chiques
2015-1-ART6-fig12Figura 12. Exploração das heranças

Neste desenvolvimento do turismo baseado no patrimônio histórico da cidade há até um – pequeno – lugar para os “perdedores” desta história de mais de quatro séculos. Índios de uma reserva vizinha, distantes herdeiros dos ocupantes originais desta terra, estão vendendo seus artesanatos na rua, e um jovem empreendedor encontrou um meio de subsistência ao lembrar, vestido de trapos e de manilhas nos pulsos, o destino dos escravos que passaram por este porto para irem extrair ouro ou escolher o café que fizeram a fortuna da cidade e permitiram erigir monumentos, inclusive a igreja que serve de pano de fundo para fotos. E turistas fazem fila para posar ao lado dele, sem aparentemente perceber a ironia deste retorno, em forma de diversão comercial, de uma história trágica…

Bibliographie

Tricentenário de Paraty: notícias históricas de J. S. A. Pizarro e Araújo. Rio de Janeiro: SPHAN, 1960.

Paraty (ed. comemorativa do tricentenário do Município). Rio de Janeiro: IBGE/CNE, 1977.

Camargo Maia, Theresa Regina de; Maia, Tom. Paraty. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1975.

Camargo Maia, Theresa Regina de; Maia, Tom. Do Rio a Santos: Velho Litoral. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976.

Cotrim, Cássio Ramiro Mohallem, Villa de Paraty, Rio de Janeiro, Capivara, 2012.

Gurgel, Heitor; Amaral, Edelweiss. Paraty: Caminho do Ouro. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1973.

Mello, Diuner José de. Paraty: Roteiro Histórico do Visitante. Ed. do autor, 1976.

Narjara do Valle Nogueira, Paraty: análise histórica do seu desenvolvimento turístico, Universidade Federal Fluminense, Departamento De Turismo, Niterói 2011

 

Webographie

Parati Patrimônio Cultural da Humanidade
Paraty: Cidade Histórica, Monumento Nacional
Cronologia Histórica
Alambiques
Paraty e Búzios lançam inventário turístico

 

 

* Hervé Théry
Creda, UMR7227 CNRS-Université Sorbonne Nouvelle
Professor visitante, Universidade de São Paulo (USP)


Tradução Francês > Português:
Hervé Théry e Regina de Mello Marques