Os usos políticos da paisagem na produçao discursiva do turismo na cidade de Florianópolis

Maria Helena Lenzi

Na atualidade, a cidade de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, ao sul do Brasil, figura entre os principais destinos turísticos do litoral do país[1]. Divulgada como uma cidade de paisagem ímpar, onde natureza e urbanização se conjugam de forma harmônica, Florianópolis tem no turismo uma de suas principais fontes de renda, além da indústria de alta tecnologia e da construção civil.

Partindo do objetivo de analisar os usos políticos da paisagem na produção discursiva do turismo, percebemos que a valorização deste e uma suposta valoração da natureza caminharam juntas nessa cidade e, como construções históricas que são, foram sendo ressignificadas de acordo com políticas ambientais, urbanas, econômicas e turísticas.

Exploramos a paisagem nos termos de Duncan (1990) e Duncan & Duncan (1984, 2001), isto é, como uma construção discursiva, um sistema de significados cujas práticas sociais ganham sentido e, desse modo, podem ser comunicadas. Para operacionalizar essa abordagem, partimos da noção de intertextualidade de Foucault (1996, p. 155), segundo o qual se faz necessário analisar “[…] comment les différents textes auxquels on a affaire renvoient les uns aux autres, s’organisent en une figure unique, entrent en convergence avec des institutions et des pratiques, et portent des significations qui peuvent être communes à toute une époque.” Ou seja, essa análise abre-se para a relação entre elementos discursivos e não-discursivos, presente em outros autores afinados à Nova Geografia Cultural. Nesse mesmo sentido, como expõem Duncan (1990) e Rose (2005) para o estudo da paisagem, a intertextualidade articula os textos aos seus contextos de produção.

No início da década de 1970, a “indústria turística”, por já apresentar expressivos movimentos financeiros mundiais, é reconhecida como promissora e passa a compor os projetos do governo do estado para o crescimento econômico e o desenvolvimento urbano da capital. Na década seguinte, o turismo não apenas se consolida como a mais crescente atividade econômica mas emerge como “vocação da cidade”, sendo veementemente adotado, desde então, nos planos diretores municipais, além dos planos turísticos e de desenvolvimento econômico.

A partir desse contexto, a paisagem é considerada e divulgada como o principal produto turístico da cidade, especialmente pelo expressivo conjunto de seus ecossistemas naturais. A publicação do Plano Diretor dos Balneários, em 1985, é um acontecimento fundamental nesse processo, pois institui todos os balneários da ilha como “Área Especial de Interesse Turístico”, designando o conjunto de sua paisagem – seus manguezais, dunas, lagoas, restingas e encostas – como recurso econômico ou natural, devendo, portanto, ser preservado para garantir o fluxo turístico presente e futuro.

Na década de 1990 os empresários do setor turístico se unem em prol do crescimento dessa atividade, por meio de fundações, institutos e organizações não-governamentais, que passam a reger o desenvolvimento turístico florianopolitano. Dessa forma, o poder público assume um papel coadjuvante, sendo convidado a participar do planejamento do empresariado, e o turismo transforma-se em uma atividade privada que, no entanto, empreende sobre toda a cidade (Januário, 1997). As ações do empresariado são divulgadas pelos jornais como ações para todos, em prol do crescimento, desenvolvimento, preservação da natureza e melhor da qualidade de vida da cidade.

E é nesse contexto, no qual o turismo é praticamente uma política privada, que se difunde a noção de desenvolvimento sustentável em Florianópolis. Isso consolida uma leitura hegemônica da paisagem, legitimada pelos órgãos de planejamento urbano e turístico que, ao utilizar de forma retórica de conceitos do discurso ambiental, com argumentos embasados no uso consciente e “sustentável” da natureza em nome das gerações futuras e da própria biosfera, promovem não só o marketing da cidade, mas estratégias de elitização e expulsão dos pobres e de todos aqueles que não estejam de acordo com os parâmetros privados do “sustentável” (Acselrad, 2009).

Apesar de hegemônica e de ter se tornado a imagem publicitária da cidade, essa leitura da paisagem não é única e vem sendo recorrentemente contestada pelos movimentos socioambientais que reconhecem nisso mais uma forma de produção de consenso que nada tem de ambiental ou ecológico e que tampouco preocupa-se com a cidade como um todo. Assim, essa paisagem que vira produto turístico não o faz por força da vocação, mas é fruto de uma rede, de uma trama de relações sociais que veem na paisagem de Florianópolis uma única leitura possível. No entanto, por ser resultado de escolhas e de arranjos políticos, também produz tensões, podendo ser questionada e modificada.

Referências bibliográficas

ACSELRAD, H., 2009. A duração das cidades: sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. Rio de Janeiro, Lamparina.

DUNCAN, J., 1990. The city as text: the politics of landscape interpretation in the Kandyan kingdom. Cambridge, Cambridge University Press.

DUNCAN, J.; DUNCAN, N., 1984; A Cultural analysis of urban residential landscapes in North America: the case of the anglophile elite. In AGNEW, J. et. al. The City in Cultural Context. Massachusetts, Allen & Unwin, p. 255-276.

______; ______., 2001; (Re) lire le paysage. In STASZAK, J.-F. et al. Géographies Anglo-Saxonnes. Tendances contemporaines. Paris, Belin, p. 212-225.

FOUCAULT, M., 1996. L’archéologie du savoir. Paris, Gallimard.

JANUÁRIO, S., 1997, Organização, ação e representação de interesses do empresariado do setor turístico em Florianópolis. Mestrado em Sociologia Política, Universidade Federal de Santa Catarina, 136p.

ROSE, G., 2005. Visual Methodologies: An introduction to the interpretation of visual materials. London, SAGE Publications.

[1] O município de Florianópolis possui 436,4 km2, dos quais 426,6 km2 correspondem à sua parte insular e 12,1km2 à sua parte continental. Situada entre as coordenadas 27o10’ e 27o50’ de latitude sul e entre 48o25’ e 48o35’ de longitude oeste, possui um clima subtropical úmido e apresenta ecossistemas do bioma da Mata Atlântica (Mapa 1).

 

Autor

Maria Helena Lenzi
Orientadora: Adyr Balastreri Rodrigues
Universidade de São Paulo
prenom.marie@gmail.com